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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

quinta-feira, 15 de março de 2007

“Estrada (Obs)cura.”

A permanente e natural inconstância/ imprevisibilidade da vida é por norma uma variável que tendemos a (tentar) controlar afim de minimizar os níveis de ansiedade (também naturais) que são provocados por essa fonte de (des)conhecimento que é o “futuro”(?!).
Por palavras meigas ou ditos eufemismos, existe uma forte componente de ligação entre o presente e todo o tipo de previsões, antecipações, prognósticos e tudo o que possa amenizar a insegurança proveniente do vindouro obscuro.
É necessário que se note que esse vindouro obscuro pode por exemplo ser uma (re)interpretação mental do nosso passado, e não pura e simplesmente de etiologia interpretativa de acontecimentos externos ao mundo intrapsíquico que ainda não aconteceram.
Ou seja, o que aconteceu no passado também pode mudar na nossa cabeça no presente (futuro). Não se pode alterar o passado, mas pode mudar-se a forma como se olha para ele.
Já “alguém” à muito tempo que dizia que “um Homem prevenido vale por dois”, pois se houverem procedimentos de previsão/ prevenção de acontecimentos (por exemplo) adversos a propensão para a forma assertiva de se lidar com eles pode aumentar significativamente.
Claro que quando se tratam de questões de tipo mais objectivo (exemplo: “em caso de incêndio, se eu tiver um extintor as possibilidades de eu lidar adequada e eficazmente com essa situação serão em princípio maiores”) as coisas parecem à partida mais claras, não querendo mesmo assim dizer que mais obvias.
Se por outro lado o nível de adversidade imprevista se situar com características mais subjectivas então a prevenção (preparação) pode ser tanto fulcral como insuficiente.
Basta pensar-se que morre alguém que nos é querido de forma interpretada como trágica e inesperada num acidente de viação… Podemos até prever (pensar) que isso é uma possibilidade real, ou seja, que pode de facto acontecer a qualquer momento, mas daí até esse tipo de pensamentos nos fornecer meios e características melhores ou mais adequadas de lidar com uma situação desse género do que se nunca tivéssemos tido esse tipo de pensamentos, vai uma distância algo longínqua.
De qualquer forma, e por muito que tentemos há situações em que a minimização da ansiedade do imprevisto é claramente efémera, pois sentir e vivênciar um “presente” altamente indesejável é em tudo diferente de uma imagética idealizada de uma situação nunca antes vivida.
Ainda por outro lado, isso não significa que os dotes provenientes dessa imagética não sejam úteis mesmo que nalgumas situações evidentemente insuficientes. É bom que se veja que o ser insuficiente não é necessariamente o mesmo que ser inadequado, pois repare-se: “o que é adequado para cada um de nós numa situação de morte de alguém querido de forma inesperada?”.
Devo dizer que se “espera” que o adequado seja que cada um de nós consiga à sua maneira individual viver essa situação dentro de um processo mental padrão de normalidade subjectiva para este tipo específico de luto.
Se achar por bem, se lhe apetecer, se quiser, se puder… contextualize o (des)contextualizado…
“Será que a congruência entre o comportamento, o pensamento e o conhecimento (e outros tantos factores…) atinge mesmo níveis de harmonia não conflituosa?”
“Um fumador espera mesmo morrer de cancro?”
“Para além do controlo social, para que existe (serve) a religião?”
“Acredita mesmo nos degelos ou precisa de ver o mar à sua porta?”
“O que acha que aconteceria se fosse a conduzir o seu veículo automóvel numa auto-estrada portuguesa (por exemplo a A1) e se colocasse na faixa de rodagem da esquerda (ou a mais à esquerda) a uma velocidade constante de 120 km/ hora?”
“Para quantas destas perguntas tem mesmo uma resposta?”
“Se acha mesmo que começou a fazer este pequeníssimo exercício o que é que o(a) impede de continuar?”
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 13/03/2007

2 comentários:

J. Conde Rodrigues disse...

Olá João,

é claro para mim que a forma como olhamos para o passado condiciona Incisivamente o nosso presente e consequentemente o futuro, não poderia concordar mais contigo.

Contudo (correndo o risco de não ter interpretado bem as tuas palavras) vejo com ...alguma distancia e ambivalência, o facto de se "universalizar ou generalizar" o tradicional dito "Homem prevenido vale por dois", tal como se apresenta de certa forma no post original, (leia-se com isto), que deduzir a partir do mundo objectivamente externo, da esfera dos objectos exógenos ao individuo (ex: prevenção dos incêndios e objecto de protecção) para uma realidade subjectiva que é a vida intra-psíquica e idealizada do individuo Humano, mesmo sendo faces duma mesma moeda ou não sendo de todo dissociadas apresentam tal como numa relação do eu + outro (ou objecto) características individualizadas do eu do outro e da relação distintas.

Já agora devolvo-te algumas questões que me surgiram, como será possível uma posição de "pura" assertividade face ao futuro obscuro?

Como conseguir que esta posição assertiva não tenha em razão a estrutura original/passada que a suporta?

Será necessário criar uma estrutura/organização única e exclusiva para ser capaz de fazer esse exercício livre e independente?

Deixas-me curioso quando afirmas que "...se “espera” que o adequado seja que cada um de nós consiga à sua maneira individual viver essa situação (concordo) dentro de um processo mental padrão de normalidade subjectiva (?) para este tipo específico de luto." a que padrão te referes?

Tudo isto porque, na nossa dinâmica mental a meu ver, o ser Humano tende a privilegiar uma negação da dor e sofrimento mesmo que hipotético, simulado (no próprio ou no outro), transformado, renegado e recalcado devido talvez a um narcisismo primário que nos garantiu um dia a sobrevivência e que de certa forma continuamos a utilizar esta estratégia (por exemplo) para nos afastar daquilo que é o nosso futuro mais garantido (e menos obscuro), essa que de pensar até custa escrever ou verbalizar, a morte. Agora basta exercitar e pensar se em nós próprios existe tal dificuldade e se ela será igualmente difícil para com os nossos entes mais queridos. Talvez fique um pouco mais explicito o porquê da minha ambivalência em relação ao "Homem prevenido vale por dois".

Para a próxima farei um esforço por resumir mais o comentário ;)

Abraço

Rui Luís Lima disse...

olá

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