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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

“Pré-cog.?”

Se houvera “alguém” que de sua prezada dignidade faria o que deveria ter feito ao invés do que mais jeito na altura lhe daria, talvez, e só talvez, a conflituosidade envolvendo essa instância psíquica, a qual se conhece pela que incorpora a dinâmica incutida de valores, se dissipasse em harmonia interior entre as outras duas (instâncias psíquicas).
De forma descodificada, é também a diferença entre o que me disseram que deveria achar (pensar) e as modificações decorridas ao longo da vida dessa teoria incutida de valores. É ainda a diferença entre o que faço e o que acho (penso) que deveria fazer ou ter feito, ou entre o que “alguém” acha ou achou (pensa ou pensou) um dia e o que hoje faço ou fiz até ao dia de hoje.
Essa forma reguladora e regularizada por “alguém” que não nós, acaba por nos pertencer mais do que aos outros?
O comportamento… O meu inconsciente moderado pelo meu sub e dilacerado pela minha consciência, traduzido em acção (?!)… Todas (as instâncias) fazem parte da mesma, a que realmente controla: o inconsciente.
“Alguém” achou por bem introduzir elementos de controlo sob o elemento controlador, pois o medo deste “chefe primitivo” é fundamentado na terrível ameaça que ele em si representa: o ser humano enquanto ser puro e simples animal (?!)…
Calma! Outros animais, tão animais quanto nós têm neles introduzidos esses elementos de controlo… E essa introdução, é feita nos que não são domesticados, pelos seus semelhantes de espécie (e não só)…
Em que queremos ser mais? Em que é que somos mais? Será sequer possível ser mais que alguma coisa?
Uma das expressões mais hilariantes que um “alguém” de nós inventou e que atingiu um sucesso com assinalável conceptualização mítica, é aquela que diz que: “…somos diferentes porque somos seres racionais…”.
O que é ser racional?

Uma autêntica barbaridade, querermos acreditar que somos algo que nunca iremos ser… Um autêntico “falso-self” cultivado no campo social…
Somos mesmo animais racionais?
Pense bem?
Volte a pensar?
“Tente ser tão arrogante como um cão ou tão humilde como um ser humano...”
Se é assim tão racional, porque é que prevalece no cume da hierarquia que dita o comportamento o “chefe primitivo”? Aquele que nos controla e que nós apenas tentamos controlar (!?)…
Parece-me tão claro que o que dominamos de nós próprios é tão pouco que nem nós conseguimos ver (!?) (porque é inconsciente, e isso quer exactamente dizer que não temos acesso a essa informação vinda de nós próprios)…
Essa instância que nos controla verdadeiramente é pré-racional, é pré-cognitiva, é pré-verbal, é um mundo do qual pouco compreendemos e que não nos é possível desmentir ou aniquilar, pois a nossa própria consciência não passa de uma pequena e ínfima parte dela (do inconsciente).
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 23/01/2007

“Como distinguir envelhecimento normal de demência?”

Existe alguma dificuldade natural na distinção do que são as características próprias de um “envelhecimento normal” e de uma “demência”. Mesmo entre os técnicos de saúde cuja competência se apropria a esse efeito, as dificuldades diagnósticas estão presentes. Ainda assim, proponho deixar algumas dicas tipo, no sentido da simplificação e alerta para os que rodeiam e convivem com pessoas propensas a este tipo de confusão de nomenclatura, e/ou confusão entre um tipo de normalidade e de patologia.
Assim, fazem parte das características tipo principais de “envelhecimento normal” o enlentecimento ou lentificação mental, uma diminuição da capacidade de retenção de informação nova, dificuldades para evocar nomes, diminuição da flexibilidade mental e a manutenção da linguagem e da memória remota.
Por outro lado, como características tipo principais de “demência” incluem-se um declínio das funções cognitivas em relação ao nível anterior (alteração e deterioro da memória para registar, armazenar e recuperar informação nova e perda de conteúdos referentes à família e passado; alteração e deterioro do pensamento e raciocínio com redução do fluxo de ideias e problemáticas atencionais, etc.), um défice significativo nas diversas áreas que permitem a execução de tarefas da vida diária (vestir, comer, etc.), “consciência clara” (excepto em alterações episódicas), e, estando esta sintomatologia presente durante pelo menos 6 meses.
Comparando o parágrafo referente às características de “envelhecimento normal” com o referente à “demência” parece certo que a linha de distinção entre os dois conceitos é bastante ténue e até um pouco ambígua. Baseado apenas na descrição anterior encontramos poucas diferenças, sendo que as principais e mais salientes referem que no “envelhecimento normal” mantêm-se a linguagem e a memória remota enquanto que na “demência” ambas estão em princípio sujeitas a alterações e/ou deterioro.
Mas, é necessário fazer perceber que de facto as diferenças vão-se fazendo notar cada vez mais em consonância com a evolução, fase e tipo de “demência”. Mesmo independentemente disso, uma “demência” tem em princípio características fortes e observáveis, tais como, alterações da linguagem, do movimento, da percepção e da execução que não devem estar (em princípio) presentes no “envelhecimento normal” (podendo no entanto estar presentes noutros tipos de patologia que não uma “demência”). Estas alterações levam quase necessariamente a uma alteração do padrão comportamental e relacional anteriores do indivíduo repercutindo-se na vida familiar, social e profissional.
Importa saber que se tem conhecimento de casos com características semelhantes ou parecidas com as aqui descritas, se deve dirigir a um dos 3 profissionais de saúde que são mutuamente necessários para lidar com este tipo de casos, ou seja, um Psicólogo, um Neurologista e um Neuroradiologista. Todos estes 3 profissionais são necessários para fazer um diagnóstico de “demência”, não estando nenhum deles “habilitado” a fazê-lo sozinho.
Já no que diz respeito ao seguimento e/ou tratamento no caso de diagnóstico positivo de “demência”, isso irá depender em grande parte do tipo de “demência” diagnosticada, assim como da fase e evolução da mesma. É neste sentido útil estar atento à sintomatologia indicada para que se possa acompanhar adequadamente o mais cedo possível estes casos, já que de uma forma geral quanto mais cedo for descoberta a patologia melhor será o prognóstico.
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 09/01/2007

“Relato de um mundo intra-psíquico.”

É certa e aparentemente mais fácil no imediato retirar a “mão do fogo”… Mais do que isso, é até o mais próximo do que a natureza biológica nos indicia a fazer… Se queima, e dói, porquê deixar arder? E pior, ou mais difícil, porquê procurar a dor?
Repare-se que procurar a dor é notoriamente divergente de provocá-la, isto é, a busca de um sofrimento já existente, e não causar uma nova dor através de uma antiga…
Diga-se que é de todo intencional, esta vasta e agreste dispersão abstracta de frases cujo sentido significante se pretende invocar, através da lacuna propositada de objectividade, permitindo à perspectiva individualizada que se envolva no seu próprio carácter fantasmático e pessoal…
Uma pergunta, embora básica, será: “Estando a minha mão poisada sobre um bico de fogão a gás a arder, o que é que faço primeiro?”…
A dado momento a resposta poderá parecer-lhe tão básica quanto a própria questão… O seu sentido poderá esvanecer-se… Mas, de todo o seu significado sai fora, se a dor que o queima não vai embora, com ou sem bico de fogão….
Chegar ao ponto de não se saber porque está a doer… Simplesmente dói… O sofrimento evitado, camuflado, retraído, recalcado, é agora uma onda permanente de dor que emerge do fundo, de onde foi forçada a ir, quando o que mais “óbvio” era sair desse seu mundo…
É também e ainda a velha história do momento certo… Se nesse momento não se sofre o que há para sofrer (ou se tenta que isso aconteça) o mais certo é vir-se a sofrer de forma abstracta essa dor transformada… Transformada em dor vazia de sentido e significado, baseada num “não sei” permanente de “desesperança”…
A necessidade de um significado para a dor? A necessidade de um próprio significado? Quando se está “aqui”, ou se “acaba”, ou se volta “lá” para se poder “continuar”…

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 21/11/2006

“Sinais (de ti).”

A avaliação do estado psíquico de alguém por parte de uma qualquer pessoa pode ser fundamental como medida de fonte de encaminhamento. Pode mesmo dizer-se que existe um conjunto de factores de análise que estão ao alcance dos demais, de uma forma simples e até bastante objectiva.
Importa antes de mais, ter uma noção dos conceitos de normal e patológico, que apesar de à priori parecerem demasiado abstractos e relativos, podem tornar-se mais simples e objectivos, se forem seguidos parâmetros específicos de perspectiva.
Normal, dentro do contexto acima descrito, será tudo aquilo que se apresenta dentro de um padrão de norma (para uma cultura, faixa etária e sexo, de forma específica), ou muito basicamente do que é mais habitual/normal de acontecer/existir (dentro dessa cultura, faixa etária e sexo). Pode ainda referir-se como normal, tudo o que foge a esse dito padrão, desde que esse desvio não comprometa ou ponha em causa o “bom” funcionamento do indivíduo nas suas áreas de vida (pelo menos as mais básicas).
Como patológico, pode considerar-se tudo aquilo que foge ao referido padrão de normalidade (e de funcionamento anterior) e que sem qualquer dúvida impede o “bom” funcionamento do indivíduo (de forma “clinicamente” significativa) numa ou mais áreas da sua vida. Pode ainda ser considerado patológico, tudo aquilo que embora não pareça desviar-se do referido padrão, mas que ainda assim afecte de forma negativa e indiscutível o funcionamento “assertivo” dessa pessoa, também numa ou mais das suas áreas de vida.
Ou seja, o que aqui se quer realçar, é que qualquer um de nós pode perceber se uma pessoa está actualmente a funcionar devidamente nas suas mais diversas áreas de vida, ou se pelo contrário esse funcionamento está de certa forma debilitado, desajustado, desequilibrado, deficitário, ou mesmo se não está a funcionar (e se esse “mau” funcionamento por sua vez está a afectar a condição psíquica do indivíduo, e vice-versa). Essas áreas de vida são por exemplo a vida fisiológica (alimentação, o sono, etc.), a vida laboral (ou escolar), a vida amorosa/sexual, a vida familiar, a vida social, entre outras.
Outra questão é a capacidade que quer o próprio, quer os outros têm para fazer de facto uma análise deste tipo, pois a perspectiva idiossincrática do mundo misturada com um determinado tipo de estados psíquicos incapacitantes de olhar a realidade sem que esta se apresente de forma distorcida, pode ser um dos tantos factores que funcionam como entrave à referida análise.
Bom, mas essa análise pretende-se simples, superficial, prática e objectiva (!), para que ela possa cumprir um objectivo de pura e simples pré-avaliação do estado psíquico (no sentido do encaminhamento ao profissional de saúde), dentro da dicotomia do normal versus patológico.
Claro que tornar algo que por natureza ou “defeito” não integra essas características de simplicidade e objectividade na coisa mais fácil do mundo, requer regras para a concepção da própria análise. Regras essas que são muitas das vezes contra natura da própria realidade (ou altamente reducionistas), o que nos poderia fazer pensar que assim: quem é quem dentro da (ir)realidade?!
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 07/11/2006

“SAPO.”

Ora aí está!
A confirmação que todos esperávamos, de que realmente todos os esforços estão a ser feitos no sentido da melhoria permanente do Serviço Nacional de Saúde!
Já podemos dormir todos mais descansados pois dá para perceber que os dinheiros públicos para a saúde estão determinados a ser bem gastos, e, principalmente sempre destinados com base em premissas de valoração da melhoria dos cuidados em si e não com fundamentos meramente economicistas.
É isso mesmo… Agora já não vai mal, simplesmente não vai…
Deixando as dolorosas ironias de lado…
De que poderá valer fundamentar, direccionando as argumentações em etiologias referentes à (por exemplo) necessidade incontestável e incontornável da continuidade de um serviço, porque na realidade a sua existência contribui e implica níveis de qualidade de saúde, se (…): na percepção do pseudo ouvinte dessas argumentações não estão incluídos (reais) parâmetros de qualidade mas sim de quantidade.
“Nós” falamos português e “eles” numa língua inventada à pressão… Então, teremos “nós” que falar uma língua que não é nossa para que possamos ser ouvidos no nosso próprio país?! Ou vamos simplesmente deixar que uma língua nova invada o nosso território, que “eles” se ponham a falar para nós assim?!
O que se passa (não!?) é mais do que a típica demonstração de poder absolutista e elitista, que não pretende ser claro, que tem segundas intenções, que se apresenta numa forma e é realmente outra…
Não é da minha pretensão sustentar uma de tantas “teorias da conspiração”, o que objectivo é a reflexão dirigida à acção, deixar a fantasmática improdutiva e mesmo deficitária substituindo-a por uma realidade mais positiva e mais verdadeira…
Cada “um” que pense por si?!
“Um” que pense por todos?!
“Nós”?! “Eles”?!
Divididos ou não, estamos decididamente sem mais uma ou outra coisa (e com outras tantas a mais) … Nem tudo vai mal, resta saber para quem… Mas como não estou aqui para falar de generalidades, não temos SAP, temos SAPO.
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 17/10/2006