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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

“A Coisa.”

Não são certamente a quantidade de palavras que fundamentam a qualidade de um texto ou de um discurso, tal como não é a quantidade de tempo que determina a sua realidade.
Esta questão do factor “quanto”, funde-se muitas vezes em discursos de fundamentação e/ou desculpabilização da falta de tempo, ou seja, não se faz qualquer “coisa” ou porque o tempo não dá para tudo, ou porque não há sequer tempo.

O tempo real não é igual para todos?
O tempo mental não é o que do tempo real se faz nas nossas cabeças?
Se respondeu sim, então é porque no fundo o tempo é igual para todos… Pelo menos em quantidade é, e em qualidade será o que dele fizer (e o que o mundo permitir)…

Não digo que não há factores externos às pessoas que não contribuem de forma evidente e indissociável para a dimensão temporal de forma invasiva e muitas vezes até obstrutiva e dependente (ex.: guerra), isto é, o nosso tempo depende também de factores que não estão disponíveis ao nosso controle (ou percepção de controlo), mas isso, apesar de tantas vezes preponderante, não pode ser outras tantas vezes factor único de sustentabilidade.

O que de facto acontece é tão simplesmente uma questão de se utilizar esse tempo para outra coisa qualquer, que não essa “coisa” para a qual o tempo parece definitivamente não abundar ou mesmo não chegar.
O interessante no meio disto tudo, centra-se exactamente no conteúdo e significado dessa “coisa” para a qual o tempo não premeia atenção.

Não temos tempo para a “coisa” ou não damos do nosso tempo a “ela”?

Está também indubitavelmente associado a esta ideia, o facto da hierarquia de prioridades, isto é, as outras coisas às quais o tempo foi concedido eram mais importantes do que essa “coisa” para a qual o tempo não foi sequer tempo, seja nesse tempo que se considera o imediato ou naquele outro que perspectiva tempos futuros ou vindouros. Do género de dar primazia ao trabalho para que se possa proporcionar uma vida melhor a nós próprios e àqueles de quem gostamos, agora e no futuro. Mas… e o que é isso de dar uma vida melhor (?), senão apenas uma conceptualização própria disso mesmo! Isso definitivamente não quer dizer que para esses de quem tanto gostamos seja o melhor, ou mesmo seja o mais adequado isso que nós consideramos ser proporcionar uma vida melhor. Mais isso tudo é possível em conjunto, ao mesmo tempo, no mesmo aqui e agora, e na mesma projecção de expectativas de futuro.

O pior é que tantas vezes nem reparamos que de facto tínhamos tempo para a “coisa”, e que nem era preciso muito tempo, para que esse tempo fosse de qualidade. Mais, dar muito tempo pode mesmo significar que se deu menos tempo do que se se tivesse apenas dado, um ou dois minutos de real tempo e atenção concedida…

Dar dois minutos de tempo sem pressa, estar realmente com a “coisa”, olhar realmente para a “coisa”, dar atenção real à “coisa”, para a “coisa” poderá ser suficiente, poderá ser bom, até mesmo ser óptimo, e será sempre mais que tempo nenhum, ou demasiado tempo de nada, ou de muito pouco…

Essa tendência de olhar o futuro e negligenciar o presente acaba tantas vezes por ridicularizar essas teorias de fornecimento de sustentabilidade para um futuro melhor… Ter proporcionado uma vida farta de materialismos e ter negligenciado componentes básicas relacionais, vai em princípio apenas demonstrar mais uma vez que embora ajude, o dinheiro por si só não basta para que se viva bem consigo próprio… É a velha história de ter muito ou apenas algum em bens materiais… do ter e não ser… de que serve (?) se isso não serve para que se possa ter relacionamentos verdadeiros e minimamente adequados àquilo que muitos descrevem como o contínuo de felicidade… Se houve deficiências e distorções relacionais afectivas no passado que nos serviram de vínculo de aprendizagem ou de exemplo da forma como nos devemos relacionar uns com os outros, então é quase certo que nós próprios tenhamos no futuro essas mesmas dificuldades relacionais, e humano com dificuldades relacionais é tantas vezes humano perdido… na solidão de si mesmo…

E são tantas as vezes que damos atenção à “coisa” só nas nossas cabeças…
Uma atenção indirecta e ineficaz para a própria “coisa”…
Se a “coisa” não sai da nossa cabeça, porque não concretizar a “coisa” para que a “coisa” perceba, para que “a coisa sinta”, que o nosso tempo é também do tempo da “coisa”…

Essa “coisa” são muitas vezes pessoas, e tantas vezes “nossos” filhos…

“Não deixe a coisa por fazer…”
(não vá a coisa “desaparecer”)

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 17/07/2007

quinta-feira, 28 de junho de 2007

“Sete Pedras de Projecção.”

Quando a defesa é o melhor ataque (?) … – extractos eticamente alterados (ficcionados) de “um relato na primeira pessoa de um processo contínuo (e inacabado) de auto-conhecimento.”
Com sete pedras na mão sempre prontas a atirar em jeito de defesa preventiva, objectivando aniquilar qualquer tipo de ataque antes mesmo que ele ocorra, antes mesmo que ele exista ou possa ter hipóteses de vir a existir.

“Uma só pedra não basta, não vá ela não chegar, não me vão eles atacar, e eu, não ter nada com que me defender…”

Defesa permanente, já independente da “estimulação externa” que desencadeia processos “normais” de auto-defesa, tanto atacaram, tanto “disseram” ser esse o padrão normal de funcionamento geral das pessoas, que agora isso tornou-se verdade, “a minha verdade…”
A realidade (in)compatível ajusta-se ao próprio desfasamento criado, imprimido, tornando distante a essência da pessoa para os outros, os outros que teima em não deixar aproximarem-se, não vão eles mais facilmente atacar por melhor a conhecerem…
Assim, mais vale projectar nos outros “a minha própria realidade”, ou seja, “eu ataco-os porque eles me atacam”, mesmo que essa “realidade seja só minha”, pois “como pode ser a dos outros se eu os ataco em defesa (?)”, ou seja, “mesmo antes de eles me atacarem (?) … ou mesmo que não tenham intenções de o fazer, não quer dizer que não o façam…”

“Porque tenho então que me defender se ninguém me ataca?”
“Estarei ainda a defender-me dos ataques que sofri anteriormente, fazendo com que este seja um comportamento desadequado nos dias de hoje?”
“Mesmo que ache que não estou a ser alvo de ataques é o que eu sinto e é essa a verdade que eu vivo” (…) e, “não posso deixar que eles me firam, porque não quero sofrer mais por causa disso…”
“Mais vale ferir os outros que eles me magoarem a mim!”
“É aos mais próximos de mim que mais firo pois são os que melhor me conhecem que mais me magoaram no passado, e são esses os quais me metem mais medo por isso…”, talvez por isso também, “não me dê a conhecer à maioria das pessoas, e aquelas que o conseguem acabam por sofrer as consequências disso, pois são aquelas que têm maior capacidade de me magoar…”
“Mesmo que me consiga certificar que o perigo é de facto irreal, é normalmente incontrolável o acto impulsivo de apedrejar para não ser apedrejado, mesmo que só eu tenha pedras na mão!”
“Quando me apercebo que me aleijo (mais a mim) ao ferir os outros, principalmente aqueles de quem mais gosto (amo), tudo perde o sentido, embora o sentido seja esse mesmo (ou ainda seja hoje esse mesmo?) … Vejo-me num buraco sem fundo e sem tecto, onde faço o que não quero, porque também não optei que mo fizessem a mim.”
“Se me sinto perseguido (ou atacado?) é talvez por não conseguir fugir de mim próprio e de um passado que ainda vivo como se fosse o dia de hoje…”, e, “ se me sinto culpado por magoar os outros, e ando neste ciclo imparável de tristeza angustiante, é porque a responsabilidade dos meus actos é minha e não dos que contribuíram para que eu seja assim, desta forma repugnante… e, independentemente disso sou eu quem sofre as consequências disso… eu e os que mais me são próximos…”.
“Será que no fundo não gosto de mim, porque quem mais deveria ter demonstrado que de mim gostava, não o fez na devida altura? Tenho a sensação que sou uma merda, foi o que sempre me fizeram sentir, como se fosse uma merda!”
“E se eu não gosto de mim, como é que os outros podem gostar? Se calhar é mentira, se calhar dizem que gostam, demonstram que gostam, mas tudo não passa de um desejo meu de que isso seja verdade… no fundo não gostam de mim… até porque isso não só não é possível como não tem lógica nenhuma… como se pode gostar de merda? Eu não gosto!”
“Às vezes tenho dúvidas se vale mesmo a pena continuar junto daquela que é a pessoa que mais amo neste momento… a qualquer momento pode perceber a merda em que me tornei e serei novamente abandonado ao meu próprio amor próprio, que não é nenhum…”
“De facto sinto a necessidade conflituosa de estar e não estar, de me dar e não me dar, de me mostrar e de me esconder, de ir saltando de terra em terra para ver se me lembro de me esquecer… e, o que acontece sempre é que nada resulta benéfico, se quando me escondo é quando mais depressa me tento encontrar… e, quando me encontro, quando me volto a encontrar, é sempre o mesmo dilema de estar e não querer estar, a sofrer, a sofrer as consequências de uma sucessão de actos que não agi, e de uns tantos outros em que me comportei…”
“O que é certo é que eu não me sinto bem comigo próprio… e, tenho a noção que todos ao meu redor pagam (também) a minha factura até que o preço não seja demasiado elevado, depois deixam de pagar e abandonam-me… tenho medo que agora aconteça o mesmo, tenho medo de ficar só, mesmo que só já me sinta…”
“Este forte de solidão que criei (?) não vem de agora, já quando era pequeno dava por mim num canto, repleto de silêncio e brincadeiras imaginárias, estava para ali abandonado, ao deus dará, e deus não deu…”
“Quando alguém tenta entrar no forte, o mais normal é lutar com todas as armas que tenho para me proteger, não vá esse alguém ser apenas mais um cavalo de Tróia, um inimigo disfarçado de amiguinho saudável…”
“Depois, quando finalmente vejo que é amigo verdadeiro, exijo que seja um amigo perfeito, à minha imagem extremamente exigente de perfeição: uma pessoa ou é boa ou é má, não pode nem deve ser um pouco das duas ao memo tempo, ou na mesma pessoa…”
“Ao perceber que isso não existe (pessoas perfeitas), fortifico-me outra vez, pois o perigo que representam essas pessoas que me conhecem, é no sentido de me descobrirem como de facto eu sou: frágil, muito frágil…”
“Podem atacar, podem desmoronar o sentido que tenho de mim mesmo, podem querer ajudar, e isso iria implicar necessariamente uma dor muito mais forte que aquela que eu sinto agora…”
“E eu, não quero mais sofrer…”
“Já não sei se atacar é lutar ou fugir…”
“Já não sei se é estagnar ou fingir…”
“…que passa com o tempo, ou que o tempo não passa…”
“Cheguei a um ponto em que querer ajuda é comprometer o meu bem estar presente, numa alimentação de réstia de esperança num futuro que não me parece hoje possível que um dia se transforme no meu presente…”
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 26/06/2007

quinta-feira, 14 de junho de 2007

“A(l) Re-pudica(o) das Bananas.”


Bravos conceitos de moral e valor, afins de repressão primata ou de sociabilidade aceitável (?), complexos supressores de instâncias indissociáveis, artísticas formas de vulnerabilidade adequada, assertividade (des)regulada, dimensões superiores à própria condição inata, controlo do incontrolável ou sensação de segurança da possibilidade utópica (?), purificação do nojo da percepção agradável, criação sensorial do que os sentidos não falam, codificação, (des)codificação, (re)codificação…
A presunção do auto-conhecimento, enviesada, pelas normativas perceptíveis, aquelas e as outras, as que se objectivam e as que de aparência não se vêem. A mistificação do dado como certo, em absolutismos, reducionismos tremendos da visão perceptiva global do conjunto no seu todo. A necessidade necessária do pleonasmo organizativo, também mas não só, para corroborar com a parcimónia mental e a base primária da sobrevivência.
Quando tudo isto (e tudo mais) é posto em causa, a (des)regulação facilita o aparecimento do que “queremos” acreditar que não temos (vemos?), numa de superioridade intelectiva (que logo se esvai quando aparece aquela ou outra necessidade primária), nos vemos (se ainda houver discernimento para a auto-imagem) envolvidos em actividades comportamentais cujo fundamento não se pode nem deve justificar (ou julgar) por padrões de moral e valores, se nada têm a ver com a fundamentação do seu aparecimento.
Querer compreender algo através de um conjunto de conceitos predeterminados que não só não se adequam como também não fazem parte do mesmo mundo, é um belo exemplo de reducionismo ao mais elevado nível de actividade. É como se de repente quiséssemos perceber uma reacção “química” através (única e exclusivamente) das leis da “física”.
Mas o dito mundo físico, (pseudo)observável e (pseudo)objectivo, tende também ele a ser um “facilitador” da (pseudo)compreensão.
De uma outra forma ou perspectiva perceptiva, continua a ser do domínio do princípio da realidade, num sub-domínio de princípio de sobrevivência. Ora isso implica não anular a perspectiva compreensiva anterior, mas sim complementá-la, tendo em conta que a fonte de análise é assim sendo a mesma que fonte analisada.
Isto é, apesar do domínio da actuação se localizar ao nível da consciência, esta está fortemente contaminada pelos ditames provenientes do inconsciente, já que os obstáculos e barreiras moderadores estão debilitados ou mesmo inactivos, muito devido ao seu nível de importância imediata para a sobrevivência do indivíduo se encontrar altamente comprometida, face à necessidade que é percepcionada.
O título é a “solução” para a terminologia desta crónica no seu sentido, no seu contexto já houvera alguém que muito ênfase dera e contribuíra para esse algo que ainda hoje teimamos em omitir pela sua própria omissão “proprioceptiva”.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 12/06/2007

sexta-feira, 1 de junho de 2007

"Solidão Compreensiva"


Quando todos parecem não notar a existência de alguém, no sentido em que esse alguém encontra a verdadeira solidão compreensiva, a desesperança de soluções para a vida, cada vez que se depara com situações percepcionadas como aversivas, pode tornar-se de sentido único na sua resolução prática: o alivio da dor através do seu fim radical.
A génese multifacetada e plurifactorial da dimensão global que pode originar o termo da vida auto deliberado pode atingir contornos cujo potencial desencadeante se atribui, não propriamente a acontecimentos externos aversivos, mas sim à conjugação da percepção dos ditos acontecimentos como de índole negativa (de forma real ou desfasada) com um conjunto de determinações preexistentes no individuo, que se referem à sua dor psíquica.
Quando os níveis preexistentes de dor psíquica se encontram no limiar do tolerável pelo indivíduo em questão, qualquer fonte de acréscimo de dor é o suficiente para desencadear um processo de sustentação vital, isto é, a pessoa tende a encontrar uma solução para que a dor que sente diminua ou mesmo acabe.
Note-se que a dor física tem um limite, ou seja, quantificando a dor não é possível sentir mais dor que “x”, enquanto que quando se fala de dor psíquica não existe um limite que se possa considerar como tal.
Voltando à ausência da partilha compreensiva, este é um ponto que tal como um infinito de outros, pode ser um “bom” item para despoletar um comportamento adverso à auto sobrevivência. Mas o que interessa realmente não é decifrar o conjunto (de mais a menos infinito) de itens que têm potencial desencadeante mediante as condições “adequadas” para que isso aconteça, interessa sim perceber em cada pessoa no momento “certo” qual deles está a dar um contributo importante.
Repare-se que isto tem uma importância grande quando se trata de remediar de forma urgente, tentando (muitas vezes em vão) impedir que alguém se suicide, mas a um prazo menos imediatista perceber o que pode desencadear não só não basta como pode não chegar realmente.
Será necessário mais do que remediar uma e outra vez, fazer com que isso não chegue a ser preciso, se ainda houver “tempo” para isso.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 29/05/2007

quinta-feira, 17 de maio de 2007

“Folie à Deux.”

A “loucura” dos outros também pode ser a nossa “loucura” se não discernirmos que eles estão “loucos”.
Pareceria de óbvia facilidade a contestação da afirmação acima descrita, se ela não se referisse a uma Psicose Induzida. Este tipo de perturbação psicótica, ou de alienação patológica da realidade, surge no encalço secundário de doença, ou seja, é derivada de um elemento patológico primário com ideação delirante que consegue fazer crer a esse segundo (ou mais) elemento(s) que os seus delírios são realidade e não produto psicótico fictício.
Por outras palavras, uma pessoa pode ficar “louca” por acreditar que a “loucura” (delírio) de alguém não o é quando de facto não passa disso.
Esta perturbação reúne as condições necessárias para aparecer quando uma pessoa tem um relacionamento próximo, de longa duração e com níveis elevados de resistência à mudança, com uma outra pessoa que tem uma perturbação psicótica com predomínio de ideação delirante.
Dentro das relações tipo, enquadram-se mais facilmente os casais (ex. marido/ mulher) e as relações familiares (ex. pai/ filho), não querendo dizer que outros tantos tipos de relacionamentos não possam ter as características fundamentais para o desenvolvimento desta doença.
Os conteúdos das ideias delirantes dependem das características de cada doente (primário) e podem ser dos mais diversos, tais como, estar sob vigilância do “SIS”, “ET´s” terem entrado na sua mente controlando-a, existir uma guerra invisível que produz dores de cabeça e diarreia às pessoas, entre tantas outras ideias, tendencialmente bizarras.
O que pode acontecer, por exemplo, é o conteúdo da ideação delirante ser tão credível e bem elaborado que uma pessoa próxima e susceptível à sua influência forte e directa chegar a acreditar durante anos a fio que essas ideias são realidade, corroborando, vivenciando e partilhando assim a “loucura” primária do indutor.



Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 15/05/2007