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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

“Esperança…”



Tenho tido algum feed-back de algumas das minhas crónicas, de pessoas reais, com problemas compatíveis com os descritos, pessoas que se revêem e que choram pela sua condição.

Quero dizer aqui, publicamente, a essas pessoas, e àquelas outras que não se revelam, mas que de formas semelhantes têm vindo a sentir as palavras que vou escrevendo por aqui, que o conjunto das minhas intencionalidades é em grande parte a elas dirigido. Isto é, a pretensão não é de modo algum desregular, desmotivar, descaracterizar, des-qualquer-coisa, mas sim ir demonstrando, à imagem das suas idiossincráticas interpretações das minhas palavras, que não estão assim tão sós nas batalhas interiores (e outras) que possam estar agora a travar, que muitas vezes (não todas) só através do contacto com a sua própria realidade é que possivelmente poderão adquirir posteriormente a esperança para a resolução ou amenização patológica (se não confrontarem a existência de um problema como o vão solucionar?), que é possível (embora muitas vezes com enorme custo pessoal) que o lado vencedor no final da guerra sejam vocês e não a doença (quando ela existe)…

Estas palavras de hoje, não pretendem ser meros adereços ou pendericalhos sem sentido, mas também não têm a intenção de ser mais do que vocês lhes possam significar.

A virtude e riqueza das vossas palavras (significados) não está no Português em si, está na vossa implementação dos conceitos que lhes atribuem: o que significa para vocês “esperança”?


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 15/01/2008

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Boas Festas


Desejo a todos um FELIZ NATAL e um BOM ANO NOVO!

Tudo de bom,
João Castanheira.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

“Ainda não...”


…(mais) um pequeno relato arredondado à confidencialidade assertiva…



“Ainda não foi desta que tudo se tornou mais claro e límpido na minha cabeça, por muito que tivesse anteriormente tentado fazer com que a minha vida não dependesse desse passado que me atormenta, parece-me cada vez mais obscura essa perseguição de mim para mim…”

“Cada vez mais acredito que não é o melhor caminho aquele em que dou passos de esquecimento infrutífero, e o pior é que na outra estrada, aquela que me dita uma realidade integrada, uma realidade que continuo a desejar não ter existido, aquela que é a que se parece cada vez mais verdadeira, é também a que me impede de prosseguir para uma outra que embora seja a mesma que a primeira, não me parece de todo poder ser compatível na minha atormentada cabeça…”

“Ainda me custa muito sequer poder pensar em aceitar, e dizê-lo em voz alta, o que me aconteceu… tenho medo do que possa acontecer, do que possa vir a voltar a fazer se o admitir…”

“Se ao menos fosse possível esquecer e pronto…”

“Acha que é possível que tenha andado todos estes anos a omitir de mim o que aconteceu?”

“Eu até a mim minto…”

“Quanto mais me sinto perto de conseguir me encontrar, mais me dói por todos os lados, menos me dá vontade de me mexer… continuo a achar que mesmo que grite como gritei ninguém me vai ouvir, ninguém me vai salvar… naquele dia… como foi possível deixarem que aquilo me acontecesse?... e pior, como foi possível deixarem que acontecesse mais que uma vez?...”

“Ainda não consigo confiar nas pessoas… e ainda não sei se algum dia vou sequer perceber o que isso pode vir a significar…”

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 04/12/2007

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

“Preguiçoso ou Depressivo?”


Há muitas pessoas que costumam ser classificadas como preguiçosas ou mandrionas, e que para entrarem para essa classificação (entendida na maior parte das vezes como perjurativa) basta que por exemplo sejam pouco dadas ao labor ou gostem de dormir um bom bocado.
Ao contrário de certas dimensões e conceitos, parece-me notório que as diferenças entre as características da patologia depressiva que se assemelham às características do rotulado “preguiçoso” são suficientemente divergentes para se entender de forma pouco ambivalente o que é que é o quê. Isso de facto não impede, nem tem impedido, de tantas vezes serem (con)fundidas uma com a outra, ou seja, na maior parte das vezes categorizam-se as pessoas como preguiçosas (quer hajam indicadores de uma ou outra situação) e só depois numa análise mais aprofundada se remete essa preguiça para o sintoma depressivo, se for esse o caso.
(É claro que quando especificado a grupos etários a confusão pode e é normalmente maior nas crianças, até porque é também nessas idades mais difícil e confuso o próprio diagnóstico depressivo, ou pelo menos é um diagnóstico que se rege, não só mas também, por sintomatologia bem diferente da mesma patologia em adultos.)
Ora, um bom exemplo das diferenças significativas que entre os dois conceitos existem reside no apetite pela realização de tarefas. “Não me apetece fazer nada” é exactamente o mesmo que dizer anedonia (sintoma depressivo?) sendo radicalmente diferente de dizer apenas “não me apetece nada ir trabalhar”. Isto é, neste campo, as diferenças demonstram ser claras, na depressão as pessoas por norma perdem o interesse pela grande maioria das suas actividades mesmo aquelas que são (ou eram) prazerosas, enquanto que no dito preguiçoso não há uma verdadeira perda de interesse, a pessoa simplesmente não lhe apetece fazer alguma coisa que por exemplo tem em expectativa ser muito custosa, não deixando de ter vontade de fazer outras coisas como são por exemplo as suas actividades predilectas e/ ou prazerosas.
Isso também não quer dizer que uma vez ou outra toda a gente tenha vontade de preguiçar, mas o que aqui se está a falar inclui uma componente de permanência temporal, ou seja, quer o depressivo, quer o preguiçoso, para o serem têm que permanecer no tempo. Ninguém deve ou pode ser considerado depressivo ou preguiçoso com base num único dia de vida.
Ao contrário do que o título poderia querer sugerir, não é minha pretensão concluir e citar todos os ditames que unem e separam estes conceitos, afim de querer responder a tal questão na sua plenitude. Antes disso, quero apenas alertar para a quantidade de vezes que todos nós fazemos uma coisa muito simples: diagnosticamos causalidades uma vez (normalmente a primeira) e regulamo-nos por essas conclusões que julgamos verdadeiras e devidamente fundamentadas, até que dificilmente algo e/ ou alguém nos convença que afinal não é bem assim. Isso tudo para pelo menos nos libertarmos da ansiedade provocada pelo desconhecimento: mais vale atribuir àquilo uma causa estúpida do que não atribuir causa nenhuma.


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 20/11/2007

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

“Projecção (d)e Carências Afectivas – Alimentação Simbólica – II” (continuação)

Na última crónica ficou no ar a questão: “Será mais fácil comer o que não queremos (só para não percebermos que não temos o que queríamos comer?) do que sofrer com a ausência dessa comida desejada?”.

De facto, num momento inicial e imediatista parece natural que mais vale comer do que ter fome, mas e se a questão não tiver relacionamento com a fome, mas sim com o desejo por certa comida específica? Ou pior, se o que comemos não mata essa fome e ao invés ainda a salienta mais? Ou seja, pode até existir fome numa determinada pessoa, mas isso não significa que essa pessoa não tenha acesso a comida em quantidade suficiente que lhe permita saciá-la, e não significa também que a principal problemática esteja relacionada com a fome que essa pessoa sente, mas sim com a incapacidade, de origem diversa, em fazer com que essa fome seja satisfeita: a fome por comida específica.
Poderiam então vocês dizer que isso não é fome! E num contexto não metafórico até teria razão de ser essa pertinente refutação… Mas, afinal, o que é esta fome metafórica (?), senão uma forma explícita (ou implícita?) de carência (ou falta de…) daquilo que sentimos ser necessário para nós (mesmo que não nos apercebamos do que é que temos fome). Não é aquilo que queremos, nem o que gostaríamos de obter, mas sim aquilo que sentimos querer, o que sentimos desejar, o que sentimos que sem isso algo não vai bem dentro de nós e não vai ficar bem enquanto não o conseguirmos alcançar.
E, se não conseguimos alcançar aquilo que realmente sentimos ser do nosso desejo, muitas vezes tentamos satisfazer por proximidade, isto é, algo que nos traga satisfação parecida ou semelhante à satisfação que expectamos obter quando alcançássemos aquilo que sentimos desejar num primeiro plano.
Este tipo de transferência ou (re)direccionamento alimentar (afectivo), pode trazer diversos tipos de consequências que não têm que ter um carácter necessariamente negativo ou positivo, mas objectivamente não revela os mesmos tipos de resultados ao nível da satisfação das reais necessidades que estão por trás do próprio desejo (primário). Ou seja, a substituição do alvo afectivo por transferência de conveniência, pode traduzir-se pela incapacidade do sujeito, perante ele próprio e o seu meio, em alcançar o alimento que seria apropriado ao seu desejo alimentar. Se se substituir sempre, a capacidade de suportar a frustração pode estar contaminada, se nunca se substituir pode a capacidade de adaptação estar comprometida… Tal como as motivações que levam à substituição, poderão ser bons preditores do bom ou mau funcionamento alimentar (afectivo) do sujeito.

A metáfora da alimentação (alimentação simbólica) tem capacidade e competências atributivas a problemáticas tão diversas como por exemplo desde as adições patológicas, aos distúrbios do comportamento alimentar enquanto sintomatologia patológica secundária, às próprias patologias primárias. Basta substituir os termos metafóricos por termos apropriados aos phatos de etiologia predominantemente afectiva.

Onde está afinal a origem da fome?
Na falta da comida?
Na falta do auto e/ou hetero esclarecimento sobre qual a comida apropriada para a sua satisfação?
Na incapacidade em procurar a comida apropriada?
Na incapacidade em obter os recursos necessários para a obter?
Na incapacidade de resposta dos recursos disponíveis no meio?
Na incapacidade em perceber que se tem fome?
Na incapacidade em se reconhecer e se aceitar que se a tem?
Na incapacidade de comer?

As questões assertivas sobre a etiologia da fome serão sempre mais do que estas, que à fome de cada um se façam as perguntas apropriadas…

E você? Tem fome?


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 07/11/2007