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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

“Dinâmica e Repetição Relacional.”


Quando repetimos de uma forma cuja repetição existe independentemente da resposta ou situação a responder, voltamos a (pré) comportarmo-nos segundo aquele padrão cujo registo à muito está imprimido naquela nossa instância que nos designa os princípios, valores e moral. E até que ponto é nossa essa instância, no sentido da sua etiologia (primária) imprimida por outros, no sentido da ausência de real consciência e domínio, no sentido em que o nosso contributo intencional para a sua formação e disposição dinâmica actual é tão diminuto quanto é mínimo o nosso conhecimento sobre a nossa “auto-globalidade” psíquica.

O ponto de viragem: a percepção de controlo (e não o controlo em si) sobre a mudança. A hipótese de que a possibilidade de sermos detentores de contributos sérios e reais sobre o que os desígnios fatalistas em nós imprimidos pelos cuidadores primários é uma via para a nossa autonomia “pré-comportamental”: a criação de uma identidade pseudo alheia ao mundo externo primário. A alternativa ou o complemento “(auto) intra-induzido” à impossibilidade de não receber e ter que “aceitar” (naquela altura?) como nosso, aquilo que aqueles outros “objectos primários” nos atribuíram, para toda a nossa vida?

A interdependência extensível e inegável do vínculo sobrevivente, “pré-disposto” e exigente à própria natureza e condição mamífera, revela-se de forma tão “límpida” nas novas vinculações (reais ou fantasiadas), que esperamos tantas vezes que esses novos “objectos” compreendam e nos respondam da mesma forma que nos “ensinaram” a responder e a esperar respostas, ou pelo menos de formas semelhantes a essas provenientes das ligações afectivas primárias.

Quando essas expectativas são frustradas nas novas relações afectivas com esses novos objectos, podem dar-se acontecimentos internos de dinâmica conflituosa, como por exemplo, entre o que esperamos dos outros (novos objectos relacionais) e o que esperamos de nós (identidade expectável), entre o que os outros primários (os cuidadores “primitivos”) esperam de nós e aquilo em que nos tornámos (identidade dinâmica actual), entre o que de facto adaptamos à nova realidade relacional e o que repetimos de relacionamentos anteriores, entre o que a nossa percepção nos permite visualizar em termos de proximidade ao “eu real” do “eu ideal” e a sua inter-relação com a percepção do objecto “pseudo-externo”, entre outros.

No entanto, é necessário destacar que a existência de conflitos internos é condição indispensável à mudança psíquica, o que não significa de todo que todos eles sejam fundamentais ao salutar “desenvolvimento” pessoal de cada indivíduo. Ou seja, apesar dos conflitos serem necessários para que ocorram mudanças, nem sempre as mudanças que ocorrem são desejáveis e/ou agradáveis, e, nem sempre os conflitos têm resoluções pacíficas ou mesmo resoluções de todo. A própria não resolução conflitual implica mudança, a mudança é de carácter contínuo e permanente, tal como a existência de conflitos, tal como a própria existência (que é sempre relacional?).


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 26/02/2008

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

“O mundo das possibilidades infinito-limitadas…”



A “pseudo-auto-impossibilitação” da visualização de expectativas de materialização futura de alternativas ao padrão circundante, vicioso e viciante, tantas vezes fruto repetido época após época de colheita, alimento relacional restrito e restritivo, vindo da semente de sempre, cuidado por essa gente, que lhe espera o fruto maduro… e se o fruto não chega?

Sem divagações, todas elas necessárias à prescrição de outras tantas mais que acções, todas elas imposto clivado pelo servo desenfreado da jaula materna…

“O que não vejo para mim, não o conseguirei alcançar (?) …”

Fatalismo, ora entorpecido ora vivo, da visão turva ou mais ou menos “hiper-focalizada”, “para ver o que vejo agora, outras tantas coisas a minha visão me impede de ver…”.

A redução realista (?) à “auto-limitação natural”…

Não, não será também só noutro mundo que as possibilidades (alternativas) poderão ser infinitas, se elas forem congruentes com a “verdade” de elas próprias serem um pouco das duas coisas (e mais duma que doutra dependendo das “situações”?): a percepção não clivada, onde a aceitação do significado da existência simultânea do limitado e do infinito, produz mais que um mero sentido mental impraticável.

Entre ter-se acesso a essa informação, quase consciente e tanto mais pertencente ao outro que a envolve (o inconsciente), e a incapacidade natural de controlo real da mesma, existe um conjunto de ditames que poderiam perfeitamente pesar para um dos lados do “objecto” clivado (como se só dois lados ou dimensões existissem? … ou serão todos eles o mesmo, um só?). Ou seja, o elemento “pré-teórico” apesar de ter um maior peso real tem um menor peso percebido (?) …

O que é notório é que na prática a dimensão “teórica” é tantas vezes “auto-realçada” como a mais influente em todo o processo vital, quando ela está sobredimensionada, sendo subjugada à que verdadeiramente é detentora do poder vital de acção e de “inacção”.

Já para não falar falando, da dinâmica incontornável, incontrolável, imparável, que é a própria existência da dinâmica em si, em tudo, em todos, e sob todas as formas e perspectivas e não “pseudo-perspectivas”… Eu sei (?), mais um reducionismo clivado pela perspectiva “teórica”, uma “pseudo-perspectiva”?

Já que é tantas vezes forçoso que se clive para decidir em função da acção ou fantasia de acção, pelo menos que se clive pela forma que nos dá mais jeito, cujo proveito seja o mais benéfico para nós, dentro do que de salutar de nós esperamos (e/ou do que esperam de nós?).

No fundo o mundo das possibilidades é limitado pelas decisões que tomamos (no campo da tomada de decisão), ao escolhermos uma deixamos que outra se torne possível, e deterioramos a possibilidade de outras serem sequer hipóteses.

Antes de decidir, são limitadas pelo infinito e pela conjuntura das condições limitativas do próprio e do meio, e ainda pela percepção dessa limitações, e também pela focalização num dos lados… esperem, eu não disse que não havia lados?

Ou então, redundância atrás de outra, vim parar ao mesmo sítio em que estava no princípio: “o mundo das possibilidades infinito-limitadas”.

Porquê procurar o equilíbrio se o desequilíbrio também é homeostase?


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 12/02/2008

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

“Procuro iluminar-me no escuro, quando já nem a luz consigo desejar… (outra vida?)”


Não haverá muito tempo para discussões quando a emergência suplanta a dúvida razoável, a limitação que já existia torna-se escandalosamente maior, de um segundo para o outro, entre a vida em pleno sofrimento do segundo anterior e a expectativa do seu desaparecimento total e aniquilante no segundo que se segue…

Que sofrimento é esse não mensurável que ao mesmo tempo sugere ser dimensionado de intolerável, insuportável, incontornável, incompreensível, cuja solução aponta para hipóteses de finitude infinita, onde as ditas alternativas também infinitas não conseguem atrair nem o sentimento, nem o pensamento, nem o desejo de acção inactiva, do ser que não deseja “mais” do que a própria vida que deseja e que não consegue visualizar esse desejo (nesse momento)… Desejar a morte, não é desejar morrer, é desejar (continuar?) a vida de uma outra forma que não aquela que o fez desejar morrer (ou retirar-se daquela vida)…

(Um) (d)O(s) problema(s) está muitas vezes na incapacidade momentânea de desejar, expectar, imaginar, visualizar uma vida que não faça desejar àquele ser a sua própria morte: a incapacidade de sonhar ou a fixação no pesadelo(?).

A solução final, “(col)matante”, culminante, quando pretende ser a luz para iluminar a solidão, será o resultado mais escuro que a própria escuridão(?), como matar a solidão com o totalitarismo representativo da própria imensidão humanamente inatingível que ela representa?

Pois não… Não tem que fazer sentido, se o poder impulsivo estiver imbuído de expectativas de conclusão, de um final, qualquer que ele seja, um que seja “apenas” melhor que o sentimento do “segundo anterior”, nem que para isso o “segundo seguinte” seja a inexistência do ser…

Mas isso, não pode deixar de ser uma realidade enviusada, reducionista, nem diria propriamente distorcida, diria mais incompleta, aquela visão que não se dispõe a ver mais do que aquilo que a própria visão nem vê… De facto, querer morrer pela morte, não será “apenas” querer outra vida?


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 29/01/2008

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

“Esperança…”



Tenho tido algum feed-back de algumas das minhas crónicas, de pessoas reais, com problemas compatíveis com os descritos, pessoas que se revêem e que choram pela sua condição.

Quero dizer aqui, publicamente, a essas pessoas, e àquelas outras que não se revelam, mas que de formas semelhantes têm vindo a sentir as palavras que vou escrevendo por aqui, que o conjunto das minhas intencionalidades é em grande parte a elas dirigido. Isto é, a pretensão não é de modo algum desregular, desmotivar, descaracterizar, des-qualquer-coisa, mas sim ir demonstrando, à imagem das suas idiossincráticas interpretações das minhas palavras, que não estão assim tão sós nas batalhas interiores (e outras) que possam estar agora a travar, que muitas vezes (não todas) só através do contacto com a sua própria realidade é que possivelmente poderão adquirir posteriormente a esperança para a resolução ou amenização patológica (se não confrontarem a existência de um problema como o vão solucionar?), que é possível (embora muitas vezes com enorme custo pessoal) que o lado vencedor no final da guerra sejam vocês e não a doença (quando ela existe)…

Estas palavras de hoje, não pretendem ser meros adereços ou pendericalhos sem sentido, mas também não têm a intenção de ser mais do que vocês lhes possam significar.

A virtude e riqueza das vossas palavras (significados) não está no Português em si, está na vossa implementação dos conceitos que lhes atribuem: o que significa para vocês “esperança”?


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 15/01/2008

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Boas Festas


Desejo a todos um FELIZ NATAL e um BOM ANO NOVO!

Tudo de bom,
João Castanheira.