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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

«Bullying» abordado em tertúlia no Dia da Criança - Violência nas escolas «pode resultar em suicídio»




O grupo local de Aveiro da Amnistia Internacional pro­moveu, ontem, no Hotel Moli­ceiro, uma tertúlia sobre Bullying (violência escolar), a propósito da comemoração do Dia Mundial da Criança. A intervir estiveram o psicólogo clínico João Castanheira e um representante da Associação Consensus, que desenvolve tra­balho na área da Violência nas Escolas e Mediação Escolar.
O Diário de Aveiro falou com João Castanheira, no senti­do de saber o nível actual de
ocorrências do fenómeno, como se manifesta, e se as esco­las sabem lidar com a situação. De acordo com este psicólogo, apesar de o conceito de Bullying ser relativamente recente, «já existe há muito tempo; há casos muito anti­gos», defendendo que a solução não deverá passar pela inter­venção política.
João Castanheira afirma que «não se deve negligenciar a víti­ma», alertando para a impor­tância de «nos focarmos no agressor, com uma intervenção de fundo a nível terapêutico». «Eles próprios são vítimas antes de serem agressores, ten­tando deixar de ser minimiza­dos, inferiorizando os outros», explica, acrescentando o tipo de «agressor vítima, que res­ponde à agressão».
Actualmente, e de acordo com o psicólogo, as agressões verbais e a humilhação adquirem tanto peso como a agressão física, sen­do que a principal característica do fenómeno se prende com o seu «carácter de permanência, que pode ter como resultado extremo o suicídio».
Segundo João Castanheira, e baseando-se em estudos já efec­tuados, «existem crianças com predisposição para ser vítimas, pelas suas próprias características», das quais destaca a fragili­dade e a tendência para a depressão. «Os agressores e as vítimas têm características muito semelhantes; têm é uma forma completamente diferen­te de lidar com elas», revela.
No que respeita à sua opinião sobre se as escolas sabem como gerir o problema, João Castanhei­ra não hesita em responder que não, acreditando estarem a pre­parar-se nesse sentido, «princi­palmente a nível informativo». «É uma situação que se verifica, sobretudo, nos recreios, onde as crianças têm liberdade para parti­lhar uns com os outros; não há supervisão, senão entre elas pró­prias». Na sua opinião, a solução não passará pela anulação desta socialização interpares.
De acordo com os estudos mais recentes, o fenómeno está presente por todo o país, inde­pendentemente da região, sen­do que «quanto mais novas são as crianças, mais envolvidas estão», com maior incidência no sexo masculino.»


por Carla Real,
in Diário de Aveiro, 02/05/2008

quinta-feira, 29 de maio de 2008

“Por trás do corpo que avisto…”


Silhueta recortada em folha de papel, mostram-se em linhas os contornos da pele, permitem diferir o quão imagética distorcida há nessa realidade construída, e o quanto ela serve perfeitamente para esconder ainda mais fundo uma dor tão distinta dessa que se quer fazer demonstrar através do corpo “auto-deformado”.

Pode até parecer que não, a uma primeira e quem sabe segunda e terceira vista, que a dor posta no “concreto” de um corpo (não) corresponde a uma idealização qualquer, que é uma dor menor, ou melhor, é uma dor transformada, re-integrada, re-interpretada, uma bem mais suportável que aquela que realmente propulsiona, desencadeia, encadeia, o aparecimento dessas ditas perturbações do foro alimentar.

É demasiadas vezes “mais fácil” lidar com uma perturbação que tende para o palpável, do que lidar com aquilo que já nem se sabe bem o que é, o que foi e o que irá ser. Mas, a isso acresce um problema, o problema de se tentar apenas lidar com a sintomatologia considerando que essa sintomatologia é o problema em si, quando ela é apenas um dos resultados consequentes do real nível problemático. Assim, além de se desconsiderar o problema fundamental, ainda se corrobora com a distorção problemática que a pessoa de forma inconsciente elaborou para tornar “mais fácil” a sua vida, ou será, menos difícil?

Mais directamente, e para que não fiquem dúvidas, venho aqui afirmar algo que pretendo clarificar, que nem sempre as perturbações são aquilo que parecem à partida, e que muitas vezes são confundidos os sintomas com a doença, e um exemplo disso são as designadas perturbações do comportamento alimentar, que são o resultado sintomatológico de um quadro patogénico (prévio) e não a patologia em si (podendo no entanto tornar-se uma patologia em co-morbilidade com a(s) que a originou(aram)).

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 28/05/2008

sábado, 3 de maio de 2008

“Na linha do umbigo…”



Não parece assim tão claro que a possibilidade legível da linha divisória entre essa saúde (normalidade?) e essa doença (patologia?) seja assim tão pouco ténue e tão pouco ambivalente quanto tantas vezes a querem fazer parecer. No decurso de um qualquer dia-a-dia profissional, extasiado por um nível de experiência real mas ilusória, alguém se dá ao luxo de se basear e de se reduzir ao seu mais natural sentido pragmático no exercício do seu ofício. O discernimento de alter encorpado por toda a conjuntura da visão perceptiva, do que ela foi, do que ela é, do que ela se deseja tornar, sendo ainda essa nas três condições proferidas apenas uma mesma integral que apenas funciona mediante um elemento temporal imediato, pseudo-espontâneo e imediatamente passageiro. Onde reside afinal a dinâmica da prioridade hierárquica da importância? “Narciso…” (?)

Com siso ou sorriso, com mais ou menos “Narciso”, a linha é sempre a mesma (?), daquele gigante maciço, o umbigo da espécie humana, aquele animal mamífero, a designada e auto proclamada “humanidade”, a regra implícita do “bem” comum, esse prol de si próprio(s) que a todos (co)move em massas repartidas e unitárias, entre auto-focalizações universais e auto-guiões idiossincráticos, juntos descobrimos que “a razão” não é razão em si mesma, que não é esse o sentido propulsor desta nossa pequena imensidão, se o sentido só sentindo se encontra… (?)

Para muitos estas letras poderão representar um enorme conjunto de portas fechadas, para tantos outros exactamente as mesmas portas abertas… Para outros ainda, as mesmas portas não passam de passagens sem esse obstáculo limitativo que abre e fecha… Para mim, todos têm razão no mesmo tempo, no mesmo contexto e com os mesmos objectos… Mas eu, não quero ter razão, mas reparem que “desejo” que encontrem a vossa… “Narciso…” (?) Porque haverão de existir portas sequer? Ou sequer razão?

Custa assim tanto admitir que “ela” na realidade não existe, existindo apenas um “sentimento de razão”? Será assim tão difícil perceber que por muito raciocínio que tenhamos não somos verdadeiramente racionais? Será que ainda não percebemos que “a razão” que podemos ter todos ao mesmo tempo sobre as mesmas coisas não se chama “razão” mas sim “emoção (ir)racional”? “Narciso…” (?)

“Serei eu movido pelas razões ou por razões emocionais?”

“Narciso…” (?)

“Pelas duas’? Por nenhuma?”

“Narciso…” (?)



Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 29/04/2008

quinta-feira, 27 de março de 2008

“Já não aguento mais…”


“Chegou, cegou, aquele momento, em que o tempo não é tempo, em que o olho não me vê por dentro, ainda que apenas sinta esta dor sem fim…”

“É certo que é um mal de amor, um mal do coração, mas já não aguento mais isto, este ter que pensar sem querer, este ter que sentir sem poder, esta ausência de controlo de mim e do que quero ser…”

“Tenho vergonha do que sinto, e mais ainda de sofrer, de berrar aos gritos e de chorar sem saber… Parece mesmo que ninguém ouve ou jamais poderá ter a capacidade de ouvir, talvez seja porque o que sinto nem de urros berros se possibilitará de sentir…”

“Não posso admitir que estou frágil, se sempre me incutiram a ser forte mesmo quando toda a casa já há muito que tombou, e assim violento o mundo que me envolve para que ele não perceba o quão fraco(a) estou, o quão fraco(a) sou… e assim, defendo-me do mundo aversivo, sentimento intrusivo, com fortes ataques de raiva e ódio de amor…”

“Não, não posso, nem consigo, controlar e dirigir a minha vida, se toda ela é dirigida para e pelo sentimento que um dia gostei de ter, que hoje me atormenta não o poder decapitar…”

“Decapitá-lo, era isso que eu mais queria… resta saber se ao outro, se ao sentimento, se a mim…”

“Queria… melhor, quero apenas poder passar cinco minutos sem pensar naquilo que não quero pensar, encontrar paz, desaparecer… se o sentimento vai sempre comigo, então eu vou juntamente com o sentimento… mas, para onde? Se já estou mais morto(a) que vivo(a)…”

“Ao mesmo tempo que desejo ter uma pistola apontada à cabeça, também me apercebo que já é assim mesmo que me sinto, encurralado(a) por um tiro que desejo dar, por uma pistola que desejo encontrar, mas que não a quero ter que sentir…”

“E então? Nem morro nem vivo?”

“Ou será isto que é viver?”

“Está bem que não é possível, jamais, voltar a sentir-me como antes, tal como o mesmo poderá ser dito no futuro sobre o que sinto agora, mas não é também isso que me consola, nem é isso que me atormenta… o pior é o desejo de não desejar, porque o que desejo, e se o obter, se o concretizar, irá, ou poderá certamente piorar o que sinto… ou melhor, sinto-me assim porque quero o que ele(a) não me pode dar: um ele(a) ideal, sem defeitos nem feitios, sem dores… e desejar a ausência de dor será o mesmo que desejar não viver, porque não se vive sem sentir, e não se sente sem dor…”

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 25/03/2008

sexta-feira, 14 de março de 2008

“A Ingenuidade e a Genuinidade da Besta...”



Não procuro encontrar no encontro das minhas palavras com a leitura das mesmas, um processo pelo qual se pretendem fazer valer ensinamentos concretos (ou sequer mesmo ensinamentos em si), de objectividade de valência transmissiva daquele tipo de conhecimento que por alguns (e pela sua potencial necessidade de minimização da incerteza e consequente ansiedade proveniente) só o é quando positivista, baseado (talvez) em modelos prévios e padronizados do que foi, do que é, e do que por eles é pretendido e desejado que a ciência seja: uma ciência positiva.

A aplicação da técnica científica na prática clínica psicológica é um processo que indubitavelmente está e estará associado à envolvência complexa do “domínio” da subjectividade-objectiva da “técnica de aplicação da própria técnica científica”: a arte da aplicação da técnica cientifica pela própria arte.

Será assim tão escuro esse negro?

Não deverá ser suposto expectar ouvir respostas quando o que se faz são apenas perguntas, pelo menos as minhas respostas, pois são as vossas que a vós mais vos interessam, independentemente da qualidade auto-classificativa que nelas se sentem a sentir.

Exigir compreender?

A liberdade da (para a) “Besta Primitiva” é a “Sua” própria angústia de liberdade (libertação)?

Sou o que sou(?) também sendo o que sinto?

Se não há a aceitação por uns, há a compreensão dessa dimensão por outros?

Não pretendo, “aqui”, ser científico (“positivo”), se não é essa a forma, se não é esse o caminho, se não é esse o conteúdo, se não é isso que mais preponderância valorativa tem para compreender “o que sinto de ti”.

Como exigir uma outra forma “que não sou”? O valor da génese genuina independentemente da sua produção final...

Adaptar, quando se pretende libertar a “Besta”?

Aceitar, a existência tantas vezes frustrante do existir das “barbaridades”?

Não querer ser só a “Besta em Liberdade”, nem ser só ela na sua “Prisão”, mas não querer também que ela não exista quando é indissociável (d)a sua existência... não será querer ser mais (ou menos) do algo que (não) são?

Ninguém tem a obrigação de conhecer o que de si lhe é “intencionalmente desconhecido”. “Não sei ser outro que não este EU total e repartido”.



Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 12/03/2008