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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

“Ficar pior, para poder melhorar…”



Quando se procura um profissional de saúde mental com objectivos fundamentados para a resolução de questões de foro patológico, isso significa normalmente que a pessoa espera melhorar a sua condição de doença, o comummente “ficar bom”.

Entende-se na maior parte dos casos que assim seja, pois se o objectivo fosse ficar (ainda) pior, algo de (ainda mais) “estranho” se passaria. No entanto, há casos em que para atingir o objectivo de melhorar, ou mesmo de “ficar bom”, é necessário e mesmo imprescindível que se piore primeiro.

É necessário explicar que este “ficar pior” tem mais a ver com a percepção que o próprio paciente tem do desenrolar dos (auto) acontecimentos (mentais), do que da condição semi-objectiva que esse apresenta, ou seja, o paciente sente-se de facto pior, mas esse será um dos passos do caminho que precisa de dar, para que o ficar melhor posterior seja realmente verdadeiro, sustentável e duradouro.

Vejamos o seguinte exemplo. Um paciente cuja perturbação tem como um dos principais factores etiológicos o “evitamento mental presente” de um acontecimento passado altamente doloroso. Doloroso ao ponto, que a maneira que esta pessoa encontrou para lidar com sofrimento envolto a esse acontecimento, foi dissociar esse acontecimento da sua realidade mental, isto é, na sua psique (consciente) é (quase) como se nada tivesse acontecido, como se tivesse apagado ou transformado essa realidade numa muito mais suportável e menos custosa de admitir que fizesse parte da sua vida. Este paciente ao procurar ajuda de um profissional de saúde mental, vai necessariamente ter que aumentar o seu nível de sofrimento (que já era absolutamente gigantesco), pois a temática que tanto “quer” evitar será potencialmente trazida novamente à consciência afim de ser reinterpretada. Sem essa análise do passado não será possível melhorar realmente, e, com essa análise do passado irá certamente percepcionar-se pior do que o que estava antes de procurar ajuda, pois o reencontro com a origem da dor provoca uma dor maior do que a que sentia antes de procurar ajuda profissional. Essa dor mais forte, por sua vez tem tendência a desregular diversas componentes mentais e funcionais da vida da pessoa, o que ajudará e muito essa pessoa a perceber que “está pior”. No entanto, o facto de vivênciar uma dor que já deveria ter sentido, atribuindo-lhe agora um significado combinado ao acontecimento que lhe deu (parte) da origem, faz com que a dor que sentia e que levou essa pessoa a procurar ajuda desapareça, pois essa dor é agora interpretada de forma adequada e congruente com a realidade vivida no passado, deixando essa realidade de estar indevidamente transformada e dissociada.

É claro que este é um exemplo que pela forma como está exposto diminui a complexidade do processo que é a necessidade de “pseudo ficar pior, para ficar melhor realmente”. Basta ver que, é possível fazer o contrário com muita facilidade, “ficar melhor, para ficar ainda pior depois”. Para isso bastaria que se diminuíssem as actividades sintomáticas iniciais sem que se trabalhasse a origem da problemática, isto é, se apenas se aniquilassem os sintomas. Ao fazer-se isso, primeiro a pessoa iria ter a percepção de melhoria, pois sentir-se-ia melhor, mas passado “algum” tempo seria inevitável que a dor voltasse, e tendencialmente até mais forte, pois a origem, a fonte da dor não teria sido trabalhada para que não mais a produzisse.

Quero também com isto dizer que é necessário perceber a dimensão real do que são realmente melhorias e do que é realmente ficar pior. O objectivo do terapeuta não pode (ou não deve) passar por “agradar” no imediato o paciente (e/ou as pessoas do seu mundo) com falsas melhorias e erradas expectativas.

Isto não quer também dizer que não se possa dar devidamente primazia à estabilização sintomática (vide, Castanheira, J. (2005), “A Primazia da Estabilização.” in Jornal de Albergaria de 14/12/2005) para que se possa mais tarde, com mais segurança e estabilidade do paciente (e menor risco de “crise inadequadamente desreguladora” por introdução de temas “delicados”), analisar adequadamente o passado perturbador e perturbante do paciente.


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 29/07/2008

segunda-feira, 28 de julho de 2008

"Preliminar Psychometric Properties of the Portuguese Version of the Questionnaire about Interpersonal Difficulties for Adolescentes"

Abstract
This study evaluated the psychometric properties of the Questionnaire about Interpersonal Difficulties for Adolescents (QIDA) in a sample of Portuguese adolescents. Exploratory and confirmatory factor analyses supported a four-factor structure of the QIDA in the Portuguese sample: Assertiveness, Heterosexual Relationships, Public Speaking, and Family and Friends Relationships. Internal consistency (α = 0.91) and test-retest reliability (r = 0.84) were appropriate. The results revealed a clear and predictable pattern of relationships between the QIDA and the Social Anxiety Scale for Adolescents, the School Anxiety Questionnaire and the International Personality Item Pool.

por Cándido J. Inglés, João Castanheira, Filipe Ribeiro e José M. García-Fernández,
in XXIX International Congress of Psychology (ICP 2008, Berlin - Germany), 22/07/2008

terça-feira, 1 de julho de 2008

quinta-feira, 26 de junho de 2008

“O Reconhecimento Parental?”



Será de todo imprescindível que os objectos parentais (paterno/materno), ou os seus semelhantes significativos, não descurem na relação com os seus filhos a preservação do reconhecimento audível e visível, sem (ou quase sem) abstraccionismos comunicacionais ou subjectividades latentes, com o mínimo de distorções, deformações e ruídos perturbadores, para que a continuidade do vínculo não integre em demasia comprometimentos presentes e futuros, numa relação que se quer tão genuína quanto profunda, ao invés daquela tão falsa quanto superficial (?).

E as verdades que se escondem por trás de uma percepção de verdade, que se pensa que se transmite, mas que no fundo o receptor não adivinha, não sabe, e pode ficar numa razoável e permanente dúvida confusional na tentativa interpretativa de compreender mensagens claramente dúbias, com entrelinhas maiores e mais valoradas que as próprias linhas, um verdadeiro caos relacional fomentado pela dispersão entre o que um pensa que diz e o que o outro pensa que ouve.

Aliado a este sistema psicotóxico relacional poderá vir a criação de um falso self relacional, se bem que é nesse falso self que reside toda a interacção relacional que passa assim a caracterizar aquela que é a verdade da relação, ou seja, o que foi criado na base da insegurança, da dúvida, da incerteza, do confuso, do disperso, do indirecto, do subjectivo, do abstracto, poderá vir a ser a forma exclusiva da relação funcionar, sendo a relação verdadeira ainda que fundamentada em princípios de inexistência ou falsidade.

Este padrão relacional de indução de dúvida permanente, pode por exemplo implicar a incapacidade do principal elemento indutor (objecto parental) em lidar com aquilo que não diz claramente, cujas motivações podem ser erroneamente (re)dirigidas ao alvo da indução (filhos) num sentido pseudo-protector de um mundo demasiado agressivo/aversivo para poder ser visto ou sentido pelos seus descendentes, quando na verdade a evasão dissociativa da realidade começa naquele que não quer que os outros a vejam ou a sintam. Normalmente, esse mundo agressivo e/ou essa realidade evadida dissociativamente é nada mais nada menos que a própria intra-realidade do objecto parental, e também a realidade externa ao objecto parental na forma como ele a percepciona.

(A tentativa de?) Mostrar sinais sem lhes atribuir um significado, implica que o receptor o faça, mal ou bem.


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 24/06/2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

«Bullying» abordado em tertúlia no Dia da Criança - Violência nas escolas «pode resultar em suicídio»




O grupo local de Aveiro da Amnistia Internacional pro­moveu, ontem, no Hotel Moli­ceiro, uma tertúlia sobre Bullying (violência escolar), a propósito da comemoração do Dia Mundial da Criança. A intervir estiveram o psicólogo clínico João Castanheira e um representante da Associação Consensus, que desenvolve tra­balho na área da Violência nas Escolas e Mediação Escolar.
O Diário de Aveiro falou com João Castanheira, no senti­do de saber o nível actual de
ocorrências do fenómeno, como se manifesta, e se as esco­las sabem lidar com a situação. De acordo com este psicólogo, apesar de o conceito de Bullying ser relativamente recente, «já existe há muito tempo; há casos muito anti­gos», defendendo que a solução não deverá passar pela inter­venção política.
João Castanheira afirma que «não se deve negligenciar a víti­ma», alertando para a impor­tância de «nos focarmos no agressor, com uma intervenção de fundo a nível terapêutico». «Eles próprios são vítimas antes de serem agressores, ten­tando deixar de ser minimiza­dos, inferiorizando os outros», explica, acrescentando o tipo de «agressor vítima, que res­ponde à agressão».
Actualmente, e de acordo com o psicólogo, as agressões verbais e a humilhação adquirem tanto peso como a agressão física, sen­do que a principal característica do fenómeno se prende com o seu «carácter de permanência, que pode ter como resultado extremo o suicídio».
Segundo João Castanheira, e baseando-se em estudos já efec­tuados, «existem crianças com predisposição para ser vítimas, pelas suas próprias características», das quais destaca a fragili­dade e a tendência para a depressão. «Os agressores e as vítimas têm características muito semelhantes; têm é uma forma completamente diferen­te de lidar com elas», revela.
No que respeita à sua opinião sobre se as escolas sabem como gerir o problema, João Castanhei­ra não hesita em responder que não, acreditando estarem a pre­parar-se nesse sentido, «princi­palmente a nível informativo». «É uma situação que se verifica, sobretudo, nos recreios, onde as crianças têm liberdade para parti­lhar uns com os outros; não há supervisão, senão entre elas pró­prias». Na sua opinião, a solução não passará pela anulação desta socialização interpares.
De acordo com os estudos mais recentes, o fenómeno está presente por todo o país, inde­pendentemente da região, sen­do que «quanto mais novas são as crianças, mais envolvidas estão», com maior incidência no sexo masculino.»


por Carla Real,
in Diário de Aveiro, 02/05/2008