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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

“A mesma diferença.”


Diluídas as expectativas em confrontações com a realidade partilhada, as fantasmáticas platonímicas desencontram o seu lugar no conflito psicótico permitindo à re-elaboração devolvida significar os primeiros passos para a resolução conflitual anterior e/ou para um novo surto de psicose. Da mesma experiência psíquica de confrontação com o mundo externo, é possível que o mesmo indivíduo caminhe num confusional estado de dualidade ou multiplicidade direccional, onde a resolução de “conflitos consequentes” origina outros em consequência dessas resoluções, grandemente devido à não abordagem primária da génese conflituosa, e ao trabalho continuamente secundário e secundarizante das consequências finais e intermédias. Não quer isto dizer que a importância das consequência seja negligenciada ou diminuída, mas não será benéfico esperar que se a fonte inicial de “conflito aversivo” e disfuncional continuar a existir, que os conflitos daí decorrentes possam simplesmente ser re-solucionados sem que apareçam uma e outra vez, sob esta e a outra forma. Na diversidade de formatos mais ampla da aparência observável da batalha interna, essa diversidade é tantas vezes sinónimo da mesma diferença, ou seja, a guerra é a mesma as batalhas é que são diferentes. Resolver (um)a batalha, não é o mesmo que acabar com a guerra, apesar de haverem batalhas com capacidade de a finalizar.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 12/02/2009

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

“O todo e a vida intrapsíquica.”


Condigno artifício colectivo que oferece permissão ao “self global” para ludibriar o “self específico”, que percorre em linhas que o próprio nem almeja saber que existem, uma forma elaborada de escape ao doloso impenetrável de tão insuportável e insuperável que esse pode ser, para esse ser, sendo “apenas” dele e ele próprio, alienar salutarmente (?) a consciência de si.

Codificação intrapsíquica não tanto aleatória quanto se “gostaria” que fosse, o seu fluxo, fluidez e fluência comportado pela regulação de parâmetros bem mais precisos e menos subjectivos do que tanto “jeito” daria pensar-se que assim seria, importa a parcimónia necessária ao imprescindível estado de permanência inconsciente, esse grande todo que é o “Eu” integra um tão escasso sentido “proprioceptivo” (e logo também “heteroceptivo”) que é quase mais real dizer-se que a própria consciência não existe, se essa for zelosamente interpretada como tal.

Correndo o risco de formulações e fundamentações pouco populistas e até mesmo agressivamente radicais, posso mesmo dizer que a percepção de consciência e a própria em si, não é mais do que “apenas” mais uma parte da outra parte do grande todo, ou seja, a consciência é apenas uma parte do inconsciente, isto é, ela está contida nele (e não o contrário). Esta afirmação faz parecer que ela existe, mas é importante relevar que essa existência é condicionada por um mundo “ambiental” mais forte onde ela vive e está inserida: o inconsciente (o que pode fazer com que a consciência não seja assim tão consciente quanto isso).

Não é mero “cálculo filosófico” colocar-se a típica questão do pseudo saber, sendo quer uma auto, quer uma hetero crítica fundamental para se chegar a saber que se sabe ou não se sabe realmente, isto é: “Estarei Eu realmente consciente de mim (e do mundo)?”.


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 13/01/2009

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

“Dúvidas genuínas de um dito psicótico.”




O texto que se segue inclui trechos aleatórios de um “dito psicótico”, cuja identidade, trâmites totais de confidencialidade e consentimento informado foram devidamente salvaguardados.

“Onírica intrusiva em estado de vigília, não na área de transferência, figura-se num suposto surto psicótico de alienação de uma realidade para uma outra cuja validade é tão questionável quanto a primeira, onde a veracidade e a índole genuína impõem perspectiva perceptiva incontornável, onde o controlo não existe apesar de também não preexistir anteriormente, afinal que ditames reguladores de norma fundamentam as alterações neurológicas, químicas e eléctricas, que nos fazem meramente acreditar que o funcionamento anterior a essas mudanças era o que nos conduzia a uma visão distante da turbulência errónea, à distorção da imagem, do próprio e do mundo?
Poderá a simplicidade básica regida pelo papel regulador da frequência mais comum conter a potenciação e o poder de elaborar as regras que devem ser seguidas e mantidas para discernir o que é o quê, se a dinâmica inconclusiva e permanente do todo mais geral que tudo, nos parece dizer que o mais claro seria não existirem regras de conclusão pura para fundar a visão que se constrói do mundo?
Será assim de tão difícil aceitação que todos os outros possam estar tão errados quanto eu? Se eu sou psicótico, como me poderão os outros demonstrar, a mim e a eles próprios, que não o são, eles em vez de mim? De qualquer forma não faz qualquer sentido que se diga que há quem não seja psicótico, se todos distorcemos claramente a realidade total, interna e externa, vendo-a como só nós conseguimos ver, o acesso à realidade como uma espécie única e individual, quando se pensa que à sintonia comunicacional, e se crê ver o que os outros também vêm, isso é tão real quanto a realidade que eu digo ver quando me dizem que são frutos alucinogénicos. Não será essa dimensão, uma simbólica? Uma diferente daquelas que o pseudo-comum-não-psicótico diz não conseguir aceder, e logo nega a existência da possibilidade?
Estou tão convencido como os demais que o que vejo é real, se me dizem que não é, não poderei eu dizer-vos o mesmo?
Pois, e também podem perfeitamente dizer que é fantástica ou fantasmática, ou simples filosofia, indubitável mas duvidosa demais para fazer-vos perceber que a minha realidade é apenas igual à vossa, o que digo é que todos a vemos diferente. Tão diversa é a construção, que vos levo a crer que não pode ser normal ou mesmo no caso dela existir, mesmo assim não é real, mas será que a vossa o é?
Querem-me convencer que as coisas que vejo são construções da minha mente, que de facto não existem neste nosso mundo, querem que eu deixe de ver, deixe de acreditar, querer cegar os meus olhos com psicofármacos, querem-me acalmar e calar para que eu não vos possa dizer que os cegos são vocês, que são vocês que no fundo não vêem, são vocês aqueles que temem, sim que têm tanto medo de estar enganados que mais vale que os que vos contestam sejam apagados, escondidos e enclausurados em instalações dignas, para que não possam perturbar a vossa realidade certeira, aquela que vocês têm a certeza que é a realidade real.
Também me chamam outros nomes, como perturbado ou esquizofrénico, deixa-vos mais seguros pensar que conhecem e controlam a realidade que querem ver e impor, e não, não pode ninguém ver outra coisa qualquer senão, no caso de o dizer, é condenado às vossas interessantes nomenclaturas psiquiátricas, folheadas dum catálogo patológico, inventado por vós, uma realidade tão inventada pelas vossas cabeças quanto a realidade que vejo é inventada pela minha.
Sim, não nego a revolta que já nem se esconde nestas palavras, o problema não é me discriminarem por ser o vosso suposto doente mental, o problema é vocês continuarem a achar piamente que não há nada de verdade no que vêem pessoas como eu. Até parece que alguém é dono da verdade! Pelos vistos há quem almeje ser, um deus tão deus, como todos aqueles que vocês também generosamente inventaram, para fins tão nobres como por exemplo a diminuição do medo de existir e de não existir e do receio de viver e de não viver, para terem uma paz que não teriam se não os inventassem. E depois o louco sou eu!”

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 23/12/2008

sábado, 22 de novembro de 2008

“Auto-(des)cobertas.”


Que “auto-(des)cobertas” poderão ser capacitadoras de influência relevante ao ponto de servirem de estimuladoras de modificações, cuja profundidade seja o bastante, para que essas mudanças perdurem e o sejam realmente?

Será necessário que a valoração relativa, se compatibilize entre o “sentimento” (proveniente do “prazer”), o “pensamento” e comportamento observável, e que a direcção da conveniente, indispensável e permanente luta intrapsíquica encontre harmonia entre os diversos “lados da(s) batalha(s)”?

O desconhecimento inevitável de uma maior parte de nós (tal como do mundo extrapsíquico) do que da outra parte que julgamos conhecer, parece tornar a genuinidade num conceito ingénuo e distante e o conhecimento num termo longínquo, efémero e desadequado, onde a conflituosidade se encontra e a (sobre)vivência acontece.

Esse é o mundo onde a valoração já relativa de si, se encontra permanentemente enviesada pelos ditames regedores dos conteúdos a que esse mundo se permite (con)ter, ditames esses que na maioria das vezes não sendo congruentes entre si, lutam por uma espécie de supremacia e não tanto pela “homeostase intra-instancional”.

A “auto-sobrevivência mental” aos acontecimentos (des)integrados, originários quer da própria imensidão interna, quer das dimensões inter-actuadas do mundo externo, não parece ter o mesmo significado que a “auto-vivência mental”. A primeira incide mais sobre “formas patogénicas” do desenrolar dos conflitos interiores e a segunda mais sobre “formas saudáveis” dos conflitos internos se (re)solucionarem.

Quando a funcionalidade interna se encontra comprometida pelas “vitórias patogénicas” de certos conflitos, então a (dis)funcionalidade aparente torna-se também dependente desses “vencedores inimigos”.

Pode ser que não se aceitem “essas (des)cobertas”, cujo sofrimento provocado pela aceitação pode levar quer à continuidade do padrão patológico anterior (ou padrão saudável), quer à cisão desse padrão antigo conjuntamente com a construção de um novo, mas o caminho da não aceitação (permanente e não temporária) pode ser um dos elementos impeditivos ao desbloqueio patogénico (se for caso disso).

Não se propõe de todo a existência de conceitos na sua plenitude, nem tão pouco o conhecimento dessa existência na sua amplitude máxima, até porque é indispensável e salutar que assim seja e assim esteja (inconsciente), mas realce-se que há partes que necessitam emergir para a “consciência” para que a parte que “queremos” vitoriosa, vença de facto.

Nem se pretende clarificar uma abordagem que permita focar e identificar tipologias infindáveis de conflitos, nem especificar alguns deles, apenas talvez (re)lembrar, que os há, e que alguns desses que existem precisam urgentemente de “apoio consciente” para que essa instância ganhe alguma força e algumas armas adicionais, tal como há outros cuja necessidade para a boa saúde mental é precisamente a inversa.

Pode ser tão útil descobrir como cobrir, para isso deve ser analisada a idiossincrasia envolta no todo individual e a do(s) conflito(s) que forçam o indivíduo à “sobrevivência mental”.

Ainda é necessário especificar que a emersão e a imersão (de conteúdos entre instâncias intrapsíquicas), não são de maneira nenhuma sequer formas que por si só são (re)soluções, mas sim mecanismos facilitadores (ou perturbadores) de diminuição (ou acréscimo) posterior da influência e direcção dos conflitos ou mesmos dos conflitos em si. Assim, pode mesmo dizer-se que não basta (des)cobrirmo-nos para nos conhecermos nem que seja um pouco melhor e para que esse conhecimento seja um auto-suficiente mentor de mudança, é sim necessário, para que isso aconteça, que tenhamos competências (ou as saibamos criar ou adquirir) para lidar com o que de nós nos for permitido que conheçamos.


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 18/11/2008

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

“Do estado fusional ao indivíduo…”


A divisibilidade do estado fusional em trâmites de ainda pseudo-individuação é um processo cujos desenvolvimentos tendem a ser de ténues diferenciadores de quais dinâmicas jogam para pertença de um e de outro estado. A (re)necessidade (re)corrente de voltar ao anterior estado fusional de padrão intra-relacional, parece ser um elemento vital que entende fornecer competências para que o indivíduo se torne num ser individual, de forma “quase” protegida, segura e confiante quanto baste, agora no mundo externo tal como no mundo intra-uterino.
Neste sentido circunscrito, nota-se de forma evidente que quando não existe a possibilidade físico-mental de voltar fornecer um conteúdo “pseudo-fusional” adequado, a esse ainda “pseudo-indivíduo-mental”, este último tal como o primeiro, podem “apenas” retardar ou então eliminar o processo comum “padronizado” de “fusão-individuação” inicial.
Este comprometimento processual desde que meramente retardatário, não aniquila as intra e inter competências, nem os intra e inter papéis, quer fusionais, quer individuais, mas no caso do prolongamento excessivo (ou da ruptura total) da desvinculação forçada e não desejada por parte daquele que ainda não é psiquicamente individuado, então muito dificilmente isso não lhe trará consequências nefastas para o seu bom desenvolvimento mental, precoce e futuro.
Não é aqui que começa a vida, mas é agora que essa entra em contacto com o mundo extra-uterino, e é agora que pela primeira vez existe a possibilidade de separação “real” do anterior estado de fusão, e essa é uma possibilidade cuja desejabilidade de concretização é não só elevada como imprescindível, a seu tempo e de forma doseada, com o mais volta que vai que ainda é característico e necessário, dar continuidade ao vínculo que permite a desvinculação enquanto processo saudável e natural, isto é, a desvinculação apenas no sentido do estado pré-precoce de fusão mãe-filho no pós-parto.
Se neste primeiro contacto com a agressividade do mundo externo não existir a protecção fusional materna, o indivíduo recém-nado poderá tender a desenvolver características de insegurança, ansiedade e depressão precoces (entre outras), que irão quase necessariamente repercutir-se também mais tarde de forma auto-incompreensível ao próprio indivíduo, já que esses elementos não irão estar disponíveis ao livre acesso consciente.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 04/11/2008