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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

“Da megalomania à frustração da realidade – impasse terapêutico.”



Segue-se um retalho real de livre associação (com a confidencialidade ética assegurada e devida autorização), onde o paciente se depara, (obviamente) não só, mas também, com a “impossibilidade de agir na cena analítica”:
“…não me parece que haja nada que me possa fazer sair deste impasse, apesar de sentir que essa própria estagnação se deve a esse próprio nada… se ao menos pudesse ir fluidamente como antes, onde não existia essa preocupação de encontrar o caminho, se apenas o seguia caminhando… sentia-me lá, no sitio certo, pela hora adequada, tudo parecia fluir de forma natural e espontânea… agora a sensação de que até o próprio pensamento se defende dele próprio em busca do rumo a seguir, do próximo passo, de um destino, não propriamente de chegada, mas pelo menos de passagem… nem isso, agora acontece… de tão parado começam mesmo a doer-me as pernas de não andar… talvez já tenha caminhado mais, mais do que o que devia, mais do que podia o meu corpo aguentar… assim, não sei para onde ir, sabendo que não é aqui que quero ficar… sinto sempre o desejo excitante de prosseguir, mas cada vez que inicio a caminhada fico na dúvida se o meu sentido é mesmo esse, ou estarei mesmo a andar ao contrário… ficar aqui não quero… aqui não quero ficar… esta falta de objectivos megalómanos, ou melhor, a frustração da existência de objectivos demasiado megalómanos, terrivelmente difíceis de alcançar, talvez me esteja a impedir de começar a dirigir-me para eles, na dúvida, na grande dúvida sobre a capacidade de materialização, sobre se é real esta auto-fantasmática, se de facto é a minha verdade que terei que fazer e farei todos esses feitos, que nem sempre se vêem, mas que ao meus olhos brilham… isto não pode ser apenas só isto, tem que ser mais… exigência auto-nomenclática de ir para lá do conhecido, muito para além do já elaborado, mas muito aquém destas tremendas expectativas de megalomania exagerada… é como se não pudesse caminhar mais, sem sentir que esse caminho por onde for me leve, nos leve, até onde ainda não tínhamos ido, como a um lugar onde sempre desejamos ter estado sem nunca lá termos ido… parece-me difícil, demasiado pesado, e ao mesmo tempo tão, tão simples…”

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 01/02/2010

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

“Integridade estática do Eu dinâmico.”


(Deve considerar-se a leitura do presente artigo de forma não generalista, estando incluídas hipóteses hiper-direccionadas de interpretação específica.)
A construção defensiva para a manutenção da integridade do Eu é uma necessidade natural e espontânea da dinâmica intra e inter psíquica, no entanto, essa nem sempre contribui para a funcionalidade do indivíduo, basta para isso que, por exemplo, essa construção defensiva desempenhe um papel inadequado e/ou desactualizado ao ataque real e/ou fantasmático, ou mesmo na ausência de ataque, na expectativa da possibilidade dele poder (ainda) existir (ou de existir de facto).
Ou seja, apesar de ser necessário fazer uma manutenção permanente da identidade é também necessário manter actualizado o sistema de manutenção. Quer isto dizer que, não é suficiente como também pode ser prejudicial manter intacta uma estrutura e organização defensivas, pois nesse caso as possibilidades de desajustamento entre os sistemas defensivos e os hipotéticos e/ou reais ataques são realmente elevadas, tornando assim as defesas em, possíveis e possibilitantes, retraimentos bloqueantes e bloqueadores da expansão individual na relação com o próprio, e consequentemente na relação com o outro.
Pode mesmo fazer a diferença entre a fixação num estado desenvolvimental anterior e a normal progressão identitária do indivíduo, onde fixar-se num estado anterior seria, num exemplo de conflito tipicamente psicótico, viver-se numa “realidade externa” (leia-se pseudo-parilhada) adulta funcionando predominantemente com uma realidade interna infantil. Esse desajustamento desadequante entre uma e outra realidade, onde a externa actual é lida (percepcionada) pela passada (e ainda actual) infantil faz com que da confrontação da realidade partilhada com a realidade idiossincrática (intra-psíquica) se originem conflitos de tipologia aparentemente psicótica. Digo aparentemente psicótica, pois à partida o conflito predominante poderia pensar-se ser entre o mundo interno e o extra-psíquico, mas nem sempre é assim, até porque na origem de muitos conflitos psicóticos estão outros de tipologia neurótica (intra e inter instâncias intra-psíquicas), e vice-versa.
(A dicotomia de divisão de conflitos neurótico-psicótica, aparece aqui como factor potencialmente reduccionista da própria realidade conflitual, quer isto dizer que, embora se possa clivar dicotómicamente para se compreender a predominância de conflitos, de facto essa clivagem pode afastar ainda mais a possibilidade genuína da própria compreensão da dimensão total do objecto.)
Voltando ao sistema defensivo desajustado acima exemplificado, pode mesmo dizer-se que esse inclui barreiras construídas para lidar com ataques que de facto até podem ter existido, mas que hoje já não existem mais, estando assim o individuo a defender-se no presente do seu passado. Melhor dizendo, os ataques ainda hoje existem, mas apenas na sua forma fantasmática da realidade intra-psíquica.
Para o necessário (sanígeno) reajustamento inter-realidades é necessário então reajustar a auto-identificação da realidade intra-psíquica (à realidade partilhada/ relacional), onde o propósito se situará na resolução dos conflitos internos anteriores ainda presentes na realidade actual do indivíduo, ainda que tantas vezes sob formas disfarçadas de sinais e sintomas, também tantas vezes, tão diferentes e diversos da sua etiologia original e originária.
O trabalho de reintegração/reinterpretação do Eu através da resolução (emocional) da dinâmica passada (mas actual), afim de ajustar de forma congruente o individuo, primeiro à sua própria realidade interna, depois à compatibilização e interacção da realidade interna com a extra-psíquica, é um caminho de tendência morosa e com custos de sofrimento elevado, que pretendem ser coadunantes com os resultados, profundos e duradouros desse tipo de terapêutica.
A necessidade de sofrimento emocional elevado como parte integrante terapêutica ou mesmo como o percurso em si para a resolução problemática de alguém num já sofrimento insuportável, embora não seja à partida uma notícia animadora, pode apesar de tudo constituir a abertura de uma nova porta de esperança. Não será preciso muito para perceber, sentindo, que a resolução de problemáticas que por si só já elevam o sofrimento, terá que passar por níveis de sofrimento também eles elevados, … “não será uma guerra sem sangue, nem serão batalhas sem baixas”…
...desintegrar uma estrutura e organização consolidadas ao longo de toda uma vida, para as substituir por uma nova e reparadora integração genuína do Eu, intra e inter relacional, por forma a se chegar a realmente reparar o Eu pathos por um Eu saudável, é tantas vezes caminhar de um falso self para um EU genuíno.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 13/10/2009

terça-feira, 16 de junho de 2009

“A percepção toxicológica e a funcionalidade relacional.”


O condicionamento proveniente da toxicologia da percepção do mundo (interno/externo) nem sempre serve a fins sanígenos, tal como poderia ser, para alguns, expectável que a sua função fosse exactamente a de emancipação da funcionalidade do ser relacional. Isto é, poder-se-ia esperar que a toxicidade incluída na visão do mundo por cada indivíduo o munisse de parâmetros de funcionalidade adequada à relação, específica e única, desse mesmo indivíduo com o mundo com o qual ele se relaciona.

No entanto, a toxicidade, no sentido da contaminação da percepção por elementos idiossincráticos, auto, hetero e multi dirigidos, traz à relação um dos cernes da existência relacional, o da partilha de toxicidades(?). Ou seja, a necessidade de exteriorização do Eu materializado na relação com o próprio Eu, e umas tantas outras vezes com o outro (?) (esta seria uma forma, ainda primária e patogénica, narcísica de relacionamento).

A “boa” funcionalidade relacional tende a existir não necessariamente quando há uma real partilha ou inter e/ou intra-entendimento (?), mas sim quando ela serve a existência mútua dos seres que se relacionam. Melhor, quando permite consumar a existência do Eu pela existência do nós, o outro faz-nos existir (na relação que com ele estabelecemos – forma de relacionamento sanígeno).

Ora, isso levanta mais uma vez, a questão linearmente psicótica da exclusividade de funcionamento intra-relacional, onde o indivíduo apenas se relaciona entre si próprio, uma espécie de psicose extrema onde o contacto com o mundo externo, aparentemente não se efectiva. Quer isto dizer que, mesmo num estado de funcionamento extremista de aparente total ausência de contacto ao mundo relacional externo ao indivíduo, dificilmente isso não passará de uma pseudo-aparência, já que esse ser teve (ou tem) que se relacionar, ainda que (pseudo) uni-direccionalmente (do mundo externo para esse indivíduo) para que pudesse sobreviver, pois o mundo externo é ainda assim o seu habitat. Até porque há alguma impossibilidade uni-direccional, pois o indivíduo ao receber do mundo externo já está a relacionar-se com ele, embora isso não signifique que devolva a esse mesmo mundo uma forma relacional que o mundo dos humanos possa, ou mesmo consiga, inter-entender.

Então, parece que o dúbio percepcional se manifesta, quer pela presença do código imposto e imprimido desde as relações primárias e precoces, quer pela toxicidade que essa imposição parece limitar/permitir os indivíduos nas novas construções relacionais. Quer isto significar que a perspectiva de abordagem analítico-relacional de base, umas tantas vezes impede a construção genuína de novas relações, e outras tantas vezes permite que haja abertura pré-disposta a essas novas formações.

Apesar da existência de fundamentos base, que funcionam como reguladores e até por vezes como padrões de aceitação/rejeição e funcionalidade/disfuncionalidade relacionais, isto é, das relações primárias para as novas relações, isso tem vindo a ser visualizado como objecto de análise para a mutação profícua do indivíduo. Ou seja, será a partir do (re)conhecimento desse material inconsciente, primário e primitivo, que posteriormente será possível ao indivíduo crescer genuinamente nas novas relações, se a nova relação for genuinamente nova em toda a dinâmica multi direccional que a contempla.


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 15/06/2009

quinta-feira, 30 de abril de 2009

“A vontade inconsciente de matar a minha mãe (complexo de Édipo negativo?).”


Extracto de uma sessão, com a confidencialidade devidamente assegurada, paciente em associação livre…


“A elaboração intrapsíquica do relacionamento edipiano primário na forma invertida de papeis, onde o pai representa “a mãe a conquistar”, devido à indisponibilidade materna percebida e/ou fantasiada para ser conquistada pelo filho, encontrou-se mais tarde, na vida adulta desse filho, na emersão para a pseudo-consciência da actividade pulsional de morte do desejo inconsciente de matar a sua mãe.


Matar a mãe que o pai representa fantasmáticamente, ou matar a mãe real?

Este “Édipo” parece encontrar-se agora num estado secundário confusional, ou pelo menos num estado de continuidade confusional primário, onde não entende qual o seu papel natural, não sabendo quem conquistar (pulsão de vida/sexual) e quem matar (pulsão agressiva/ de morte).

A angústia proveniente da dúvida permanente instaurada parece alimentar a confusão primitiva sobre quem é quem, hetero fantasiando, e sobre quem é ou que “Édipo” deve ser (ou deveria ter sido).


E onde cabe o papel do irmão de “Édipo” no seio desta tentativa frustrada de perceber quem é a mãe a conquistar e o pai a aniquilar?

“Édipo” sente-se demasiado fragilizado para ser o guerreiro conquistador que a natureza dele próprio espera que ele seja, a luta é demasiado feroz, os adversários são mais fortes, e existe ainda o fantasma de não saber quem são os aliados e quem são os inimigos, “Édipo” está confuso e decide não lutar.


Mais tarde descobre que mesmo que não queira essa(s) guerra(s) não se pode dissociar de a(s) travar, se não lutar morre (é aniquilado, foi?), se lutar pode morrer, pode matar (conquistar o objecto de investimento sexual/de vida), mas não pode nem consegue pacificar antes de ir para a guerra.


Será que ele ao conquistar confusionalmente o pai, isto é, o pai em representação invertida da mãe, não estará também a conquistá-lo a ele enquanto pai realmente?

Conquistar o pai (de facto) implica matar a mãe (de facto), ou matar a mãe é matar o pai que funciona em representação materna (?) possibilitando assim conquistar a mãe “real”?”


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 28/04/2009

sexta-feira, 17 de abril de 2009

“O inter-entendimento bi-focal e a existência humana.”


A situação desencadeada pela diversidade factorial e desencadeante pela unicidade causal, constrói deliberadamente a forma dispersa de entoação do cântico interno, essa linguagem de entendimento próprio que é o próprio entendimento, a comunicação pré-linguística é já ou é ainda nomenclaticamente a propriedade de significação e significado do construto da percepção elaborada da fantasmática proveniente dos quase fios de realidade capaz de estar imbuída na consecutiva e permanente auto-dissertação e também vinda da internalidade primária, aquela que é aparente e dubiamente seca de extras ao interior, a impossibilidade fusional na própria impossibilidade de clivagem.

Por outra perspectiva, a sintonia comunicacional parece ser, não só mas também, sinónimo do estado fusional primário, ou pelo menos da emancipação dos traços e reservas disso, uma espécie de sentido e sentimento do intra e inter entendimento que anteriormente e na sua fase mais precoce permitiu a sobrevivência fantasmática e real de um novo ser no aclamado mundo extra uterino.

Pela vida fora, a transferência do entendimento primário parece repetir-se em replicação contínua da mais reptiliana forma relacional, como e sob a forma padronizada de relação com o mundo, a fim de possibilitar significação prévia e posterior à existência individual, revelando-se a imprescindível necessidade de identificação primária na construção de relacionamentos subsequentes, assim, minimizando as consequências da insegurança e incerteza que caracterizam a desmistificação dos fantasmas de confrontação com a expectativa precoce de aversividade externa, apesar dessa ser também internalizada e internalizante.

Ainda de outra maneira, a sensação de sintonia relacional parece conjugar num mesmo momento temporal, a realização fusional primária e a pseudo unicidade clivada, isto é, o individuo materializa na relação com o outro a capacidade simultânea de se fundir com ele e de se separar dele, de ser um ser individual e de ser um ente relacional, de estar em “pleno” entendimento consigo e com o outro, a possibilidade novamente real e fantasmática da existência ter significado partilhado e individual.

A importância do entendimento dual e bi-direccionado, ou pelo menos da sensação dessa existência simultânea, parece ser uma das mais valorativas formas de confirmação da própria existência na sua mais básica forma de percepção de realidade, ou seja, a sensação de mutua inter-compreensão (nem que momentânea) parece permitir ao individuo infirmar a ideia da não existência, quer da pré-vida, quer da morte, e talvez o mais importante, da própria vida.

O ser só e por si só não existe mesmo existindo (?), existe muito mais na relação com o outro do que só na relação consigo próprio (?). Mesmo em condições tipificadas como patogénicas, como nas ditas psicoses severas extremas onde há um suposto comprometimento muito significativo da relação do individuo com o mundo externo partilhado, o individuo ao existir num estado clivado com tudo (ou quase tudo) o que lhe é externo parece que apesar de ainda assim existir, não existir tanto quanto os outros que lhes é ou lhes foi permitido (re)fundirem-se com a sua “mãe” após a vida intra-uterina, isto é, a sintonia comunicacional externa parece comprometida ao receptor, embora isso não signifique que para o emissor essa sintonia não exista mesmo que de forma não dual, já que ele pode estar auto-sintonizado e mesmo perceber-se hetero-sintónico, mas clivado para o mundo da partilha humano-relacional: o inter-entendimento bi-focal.


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 14/04/2009