Bem vindo(a) ao PsicologiAveiro, o blog do ITAPA.
Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

“Verdade razoável, dúvida aliviante.”



Torneando as dificuldades relacionais, tornando-as em hiperbólicos monstros fantasmáticos, deixando perpetuar a dúvida razoável de que ainda assim a fantasia poderá ser um objecto da realidade, encontra-se assim permanecido na busca do autêntico, que é tão duro como aqueles monstros o são de roer.
“Onirique comme un rêve, no sonho, como num sonho, terei que estar acordado, e nem acredito que já estou…” Essa sensação de (o)correr espontânea e quase livremente, como uma onírica pseudo-vigil onde de facto não é em sono, mas no sonho que se parece (re)tratar.
É da contestável razão que cada vez mais se perde na consciência (d)o emocional, que mesmo antes de ser consciente já comandaria aquelas tropas, que vêem, vêm, os ditames do actor que não sabe que o é de tão bem que representa, ainda que agora se eleve a dúvida aliviante de poder estar a representar uma realidade de morte mais tolerável que a morte dessa realidade.
Quando essa (dúvida aliviante) morrer, ficará a de verdade (razoável)…(?!)



Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 29/06/2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

“O bode introjectivo.”



Aquele que está cego e no entanto pensa que aquilo que vê é a sua realidade e a do outro, aquela partilhada, está no entanto tão enganado quanto o outro cuja visão não está, supostamente, afectada. Ambos, um com o outro, interagem dissonante e dissociativamente, numa forma assincrónica relacional.
(O primeiro) Aplica, como forma de base, inalterável e cristalizante, essa pré-premissa de que o funcionamento do mundo, interno e/ou externo, se regula por esses padrões daquilo que a sua visão lhe proporciona, generalizando assim o todo à sua imagem parcializada.
Poderia até ser uma forma sanigena de psicotismo se a afectação não fosse prejudicial, por exemplo, ao ponto de actuar em sentidos e direcções irreversíveis, isto é, de eliminar todas as possibilidades de ver pela cura da visão, e não pela possibilidade de cura pela alteração do mundo à imagem da sua visão cega actual. Não acredita realmente que a visão cega tem cura, ou tem medo do que a sua visão possa observar depois de curada? Há ainda a possibilidade de ter a noção de que não aceitará o que a sua visão vier a ver depois de curada, até porque a cura pode ser tão fictícia quanto a cegueira que apresenta... (O que vê e tão inaceitável e doloroso que é “preferível” tornar-se cego a ver essa dolosa realidade…) (A irreversibilidade de se tornar realmente cego e de realmente não ver.)
(O primeiro) Pede ao outro que veja, pede ao outro que confirme a sua visão, pede ao outro co-responsabilidade pela e para a existência dessa visão; pede ao outro ajuda manipulando-o como se manipula a si próprio descontroladamente, pede ao outro que seja uma marionete pedindo-lhe ainda que apesar disso acredite que tem vontade própria; pede ao outro que não seja outro e seja parte dele próprio, que se funda com ele, e faça parte do seu plano de adulteração do próprio, e principalmente que não só não seja um bloqueador dos objectivos de transmutação da realidade, como também seja alimento corroborativo e confirmativo de que ele não só não está cego, como até vê melhor que os demais. Pede ao outro que participe, para só ele participar.
O outro, aceita participar, (através da pseudo-imposição de “regras relacionais explicitas”, que o primeiro diz aceitar sem as compreender, regras diferentes daquelas que a visão do primeiro lhe permite aceder), até ter percebido que também ele não aguenta ser o que não é e que o primeiro lhe pede insistentemente que seja, um não ajudante, um possibilitante apenas, de que afinal estar cego é também uma forma salubre de ver.
(O primeiro, o outro.) Repete. Abandona. Encaminha. O insuportável conteúdo introjectivo, (que) tornou evidente a impossibilidade relacional.
Ambos percebem (n)a assintonia, a morte, a perda, o tempo. “Afinal de contas a culpa de estar cego antes de conhecer o outro é desse outro que agora conheci.”. Agora, o outro, passou a ser o bode introjectivo para a existência da cegueira do primeiro.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 30/03/2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

“Da megalomania à frustração da realidade – impasse terapêutico.”



Segue-se um retalho real de livre associação (com a confidencialidade ética assegurada e devida autorização), onde o paciente se depara, (obviamente) não só, mas também, com a “impossibilidade de agir na cena analítica”:
“…não me parece que haja nada que me possa fazer sair deste impasse, apesar de sentir que essa própria estagnação se deve a esse próprio nada… se ao menos pudesse ir fluidamente como antes, onde não existia essa preocupação de encontrar o caminho, se apenas o seguia caminhando… sentia-me lá, no sitio certo, pela hora adequada, tudo parecia fluir de forma natural e espontânea… agora a sensação de que até o próprio pensamento se defende dele próprio em busca do rumo a seguir, do próximo passo, de um destino, não propriamente de chegada, mas pelo menos de passagem… nem isso, agora acontece… de tão parado começam mesmo a doer-me as pernas de não andar… talvez já tenha caminhado mais, mais do que o que devia, mais do que podia o meu corpo aguentar… assim, não sei para onde ir, sabendo que não é aqui que quero ficar… sinto sempre o desejo excitante de prosseguir, mas cada vez que inicio a caminhada fico na dúvida se o meu sentido é mesmo esse, ou estarei mesmo a andar ao contrário… ficar aqui não quero… aqui não quero ficar… esta falta de objectivos megalómanos, ou melhor, a frustração da existência de objectivos demasiado megalómanos, terrivelmente difíceis de alcançar, talvez me esteja a impedir de começar a dirigir-me para eles, na dúvida, na grande dúvida sobre a capacidade de materialização, sobre se é real esta auto-fantasmática, se de facto é a minha verdade que terei que fazer e farei todos esses feitos, que nem sempre se vêem, mas que ao meus olhos brilham… isto não pode ser apenas só isto, tem que ser mais… exigência auto-nomenclática de ir para lá do conhecido, muito para além do já elaborado, mas muito aquém destas tremendas expectativas de megalomania exagerada… é como se não pudesse caminhar mais, sem sentir que esse caminho por onde for me leve, nos leve, até onde ainda não tínhamos ido, como a um lugar onde sempre desejamos ter estado sem nunca lá termos ido… parece-me difícil, demasiado pesado, e ao mesmo tempo tão, tão simples…”

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 01/02/2010

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

“Integridade estática do Eu dinâmico.”


(Deve considerar-se a leitura do presente artigo de forma não generalista, estando incluídas hipóteses hiper-direccionadas de interpretação específica.)
A construção defensiva para a manutenção da integridade do Eu é uma necessidade natural e espontânea da dinâmica intra e inter psíquica, no entanto, essa nem sempre contribui para a funcionalidade do indivíduo, basta para isso que, por exemplo, essa construção defensiva desempenhe um papel inadequado e/ou desactualizado ao ataque real e/ou fantasmático, ou mesmo na ausência de ataque, na expectativa da possibilidade dele poder (ainda) existir (ou de existir de facto).
Ou seja, apesar de ser necessário fazer uma manutenção permanente da identidade é também necessário manter actualizado o sistema de manutenção. Quer isto dizer que, não é suficiente como também pode ser prejudicial manter intacta uma estrutura e organização defensivas, pois nesse caso as possibilidades de desajustamento entre os sistemas defensivos e os hipotéticos e/ou reais ataques são realmente elevadas, tornando assim as defesas em, possíveis e possibilitantes, retraimentos bloqueantes e bloqueadores da expansão individual na relação com o próprio, e consequentemente na relação com o outro.
Pode mesmo fazer a diferença entre a fixação num estado desenvolvimental anterior e a normal progressão identitária do indivíduo, onde fixar-se num estado anterior seria, num exemplo de conflito tipicamente psicótico, viver-se numa “realidade externa” (leia-se pseudo-parilhada) adulta funcionando predominantemente com uma realidade interna infantil. Esse desajustamento desadequante entre uma e outra realidade, onde a externa actual é lida (percepcionada) pela passada (e ainda actual) infantil faz com que da confrontação da realidade partilhada com a realidade idiossincrática (intra-psíquica) se originem conflitos de tipologia aparentemente psicótica. Digo aparentemente psicótica, pois à partida o conflito predominante poderia pensar-se ser entre o mundo interno e o extra-psíquico, mas nem sempre é assim, até porque na origem de muitos conflitos psicóticos estão outros de tipologia neurótica (intra e inter instâncias intra-psíquicas), e vice-versa.
(A dicotomia de divisão de conflitos neurótico-psicótica, aparece aqui como factor potencialmente reduccionista da própria realidade conflitual, quer isto dizer que, embora se possa clivar dicotómicamente para se compreender a predominância de conflitos, de facto essa clivagem pode afastar ainda mais a possibilidade genuína da própria compreensão da dimensão total do objecto.)
Voltando ao sistema defensivo desajustado acima exemplificado, pode mesmo dizer-se que esse inclui barreiras construídas para lidar com ataques que de facto até podem ter existido, mas que hoje já não existem mais, estando assim o individuo a defender-se no presente do seu passado. Melhor dizendo, os ataques ainda hoje existem, mas apenas na sua forma fantasmática da realidade intra-psíquica.
Para o necessário (sanígeno) reajustamento inter-realidades é necessário então reajustar a auto-identificação da realidade intra-psíquica (à realidade partilhada/ relacional), onde o propósito se situará na resolução dos conflitos internos anteriores ainda presentes na realidade actual do indivíduo, ainda que tantas vezes sob formas disfarçadas de sinais e sintomas, também tantas vezes, tão diferentes e diversos da sua etiologia original e originária.
O trabalho de reintegração/reinterpretação do Eu através da resolução (emocional) da dinâmica passada (mas actual), afim de ajustar de forma congruente o individuo, primeiro à sua própria realidade interna, depois à compatibilização e interacção da realidade interna com a extra-psíquica, é um caminho de tendência morosa e com custos de sofrimento elevado, que pretendem ser coadunantes com os resultados, profundos e duradouros desse tipo de terapêutica.
A necessidade de sofrimento emocional elevado como parte integrante terapêutica ou mesmo como o percurso em si para a resolução problemática de alguém num já sofrimento insuportável, embora não seja à partida uma notícia animadora, pode apesar de tudo constituir a abertura de uma nova porta de esperança. Não será preciso muito para perceber, sentindo, que a resolução de problemáticas que por si só já elevam o sofrimento, terá que passar por níveis de sofrimento também eles elevados, … “não será uma guerra sem sangue, nem serão batalhas sem baixas”…
...desintegrar uma estrutura e organização consolidadas ao longo de toda uma vida, para as substituir por uma nova e reparadora integração genuína do Eu, intra e inter relacional, por forma a se chegar a realmente reparar o Eu pathos por um Eu saudável, é tantas vezes caminhar de um falso self para um EU genuíno.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 13/10/2009