Bem vindo(a) ao PsicologiAveiro, o blog do ITAPA.
Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

“A quase pseudo-consciência relacional – Só: ser, estar, sentir (?) – uma (também) alusão à relação terapêutico-analítica.”


Nota introdutória: “palavra(s)” têm no texto seguinte uma dimensão semântica que ora se enquadra no seu literal significado, ora se encontra simbolizada, e, tantas vezes o discernimento da sua significação engloba ambas, ficando por vezes dúbia a aplicabilidade do quê a quando, permanecendo uma dúvida imprescindível e intencional à amplitude do sentir idiossincrático.

            (…) “Nunca antes aquelas simples e parcas palavras tinham tido valor, até que X mas disse!” (…) Daquela pessoa, aquele dizer transformou-se, transformou (ganhou valor, nasceu e ficou vivo). Não é o que as palavras dizem (per si), nem mesmo (só) o que elas nos querem dizer, é também o que quem as diz nos diz, de nós na relação com essa pessoa, nos diz dele e (talvez principalmente) dele em relação a nós, isso pode dizer-nos tanto sobre quem (também) somos… (poderíamos também pensar as palavras no sentido inverso, de nós para o outro, mas “aqui”, pretende-se visualizar, para já, a perspectiva daquele que nasce com o outro com quem aprende a “falar – com ou sem palavras”) … As palavras deixam de o ser, quando nelas, entre elas, não há relação (intra e/ou inter-humana)… Tal como deixaríamos de ser(-)humanos se fosse mesmo possível “real-mente” estarmos sós.
           
É sim possível sentirmo-nos sozinhos… [Por muito que seja difícil de compreender e aceitar, “aqui”, podemos, também e até, dizer que nunca estamos acompanhados, tal como nunca estivemos e nunca iremos estar, e isso, é de facto tão “lógico” quanto dizer precisamente o contrário… no fim (e no “princípio”) o que conta, o que prevalece, o que é mais forte, é o sentir – mesmo que tenham sido criadas (e mantidas) hiper estruturas e/ou organizações “(phato-)defensivas” (que não permitam, por exemplo, o encontro da pulsão com o objecto receptor, real ou “substitutivo-subliminante”, e que em vez disso as conduzam ao sintoma patogénico, sinal disso mesmo).]
           
Por muito que custe aos mais “fundamentalistas-absolutistas”, “este”, é um daqueles que se lhes abarca nos seus próprios conceitos de plenitude fantasmática, mas que os destrona pelo próprio premissar da inviolabilidade “fantasioso-racionalizante”: “simples-mente” sozinhos não existimos, até porque não conseguimos literal e “simbólica-mente” (sobre)viver.
           
Encontramo-nos no outro (e com o outro), o outro em nós, e o nós na relação (encontramos a partir de “aqui” um espaço para o vice-versa?). Talvez por isso a sensação de perda e do perdido se associe, uma e outra vez, ao sentimento de solidão… a depressão (que) começa no desgosto de “Amor”… tantas vezes no mais “primário”, repetido (à sua similitude, e por vezes até à exaustão) nas relações de objecto “secundário” por essa vida fora… até se encontrar “O” novo objecto na “nova relação primária”.

Claro que também estas palavras «até se encontrar “O” novo objecto na “nova relação primária”» seriam/serão apenas lugares vazios na plateia de um qualquer teatro onde nenhuma peça sequer está a decorrer, se a elas não juntarmos, não uma qualquer, mas “A” peça, “A” plateia e “O” teatro. Mesmo, e apesar, da pretensa metáfora se imiscuir no seu próprio reducionismo (in)tolerável, permito-me ainda assim, “com vocês”, “A-riscar”. 

Crónicas da Mente Esquecida,  por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 08/02/2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

“A quase pseudo-consciência relacional: o conflito e o confronto (resolutivo).”


Parece, até, que seria “normativo” pensar-se que as relações sanígenas seriam aquelas desprovidas de conflitos (com confronto), mas o que torna as relações com potencial de sanigeneidade é, também, a existência de espaço relacional para o confronto (preferencialmente com intencionalidade resolutiva) dos conflitos que necessariamente, nelas, têm que existir (quando elas são relações tendencialmente genuínas, verdadeiras).
No entanto, até se entende esse pensamento, desde que ele queira, pelo menos, significar que as relações saudáveis são (também) aquelas que pretendem resolver os seus conflitos e como tal, relações tendencialmente com menos conflitos por resolver, logo a emancipação da expressão “relações sem conflitos”.
Tantas vezes, quando os conflitos relacionais ficam reservados a cada um dos seres individuais da relação e não encontram espaço para a partilha, esses podem tender a tornarem-se num duplo “problema”: um intra-psíquico, outro inter-psíquico.
Ou seja, um conflito que pode, por exemplo, tornar-se num tabu, que não é falado, que não é discutido, que não é verbalizado, que não encontra espaço para o confronto, faz-se de conta que não existe (ou todos sabem que existe e falam sem palavras), mas isso não faz com que ele deixe de estar lá (por resolver), a existir na idiossincrasia individual e sem expressão relacional (ou com expressão quase pseudo-relacional, num espaço relacional ambíguo e quase pseudo-subliminar, sujeito à diversidade e variabilidade interpretacionais, sujeito à fantasia do que é e do que pode ser).
Isso deixa uma margem de manobra de dimensão diversa e de amplitude imensa para a fantasia individual (por exemplo, a fantasia do que é o outro, do que é a relação, do que somos nós na relação, e mesmo do que somos nós), em contraponto com a realidade relacional (e individual). Do que dessa fantasia nasce e cresce, encontram-se demasiadas vezes as fontes dos acima ditos “problemas”… até um dia ela se desfazer (morta) pela realidade (ou não); até um dia se verificar que a fantasia não deixa de o ser, mesmo que possa ser compatível com a realidade do outro.
O outro em nós será sempre muito mais uma fantasia do que ele é (do que o que ele é mesmo), quando não encontramos espaço na relação para o vermos como ele é realmente (tal como, quando não encontramos espaço em nós para vermos mais ninguém/alguém do que nós próprios, tantas vezes nem para nos vermos a nós mesmos).

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 25/01/2011

quinta-feira, 8 de julho de 2010

“Verdade razoável, dúvida aliviante.”



Torneando as dificuldades relacionais, tornando-as em hiperbólicos monstros fantasmáticos, deixando perpetuar a dúvida razoável de que ainda assim a fantasia poderá ser um objecto da realidade, encontra-se assim permanecido na busca do autêntico, que é tão duro como aqueles monstros o são de roer.
“Onirique comme un rêve, no sonho, como num sonho, terei que estar acordado, e nem acredito que já estou…” Essa sensação de (o)correr espontânea e quase livremente, como uma onírica pseudo-vigil onde de facto não é em sono, mas no sonho que se parece (re)tratar.
É da contestável razão que cada vez mais se perde na consciência (d)o emocional, que mesmo antes de ser consciente já comandaria aquelas tropas, que vêem, vêm, os ditames do actor que não sabe que o é de tão bem que representa, ainda que agora se eleve a dúvida aliviante de poder estar a representar uma realidade de morte mais tolerável que a morte dessa realidade.
Quando essa (dúvida aliviante) morrer, ficará a de verdade (razoável)…(?!)



Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 29/06/2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

“O bode introjectivo.”



Aquele que está cego e no entanto pensa que aquilo que vê é a sua realidade e a do outro, aquela partilhada, está no entanto tão enganado quanto o outro cuja visão não está, supostamente, afectada. Ambos, um com o outro, interagem dissonante e dissociativamente, numa forma assincrónica relacional.
(O primeiro) Aplica, como forma de base, inalterável e cristalizante, essa pré-premissa de que o funcionamento do mundo, interno e/ou externo, se regula por esses padrões daquilo que a sua visão lhe proporciona, generalizando assim o todo à sua imagem parcializada.
Poderia até ser uma forma sanigena de psicotismo se a afectação não fosse prejudicial, por exemplo, ao ponto de actuar em sentidos e direcções irreversíveis, isto é, de eliminar todas as possibilidades de ver pela cura da visão, e não pela possibilidade de cura pela alteração do mundo à imagem da sua visão cega actual. Não acredita realmente que a visão cega tem cura, ou tem medo do que a sua visão possa observar depois de curada? Há ainda a possibilidade de ter a noção de que não aceitará o que a sua visão vier a ver depois de curada, até porque a cura pode ser tão fictícia quanto a cegueira que apresenta... (O que vê e tão inaceitável e doloroso que é “preferível” tornar-se cego a ver essa dolosa realidade…) (A irreversibilidade de se tornar realmente cego e de realmente não ver.)
(O primeiro) Pede ao outro que veja, pede ao outro que confirme a sua visão, pede ao outro co-responsabilidade pela e para a existência dessa visão; pede ao outro ajuda manipulando-o como se manipula a si próprio descontroladamente, pede ao outro que seja uma marionete pedindo-lhe ainda que apesar disso acredite que tem vontade própria; pede ao outro que não seja outro e seja parte dele próprio, que se funda com ele, e faça parte do seu plano de adulteração do próprio, e principalmente que não só não seja um bloqueador dos objectivos de transmutação da realidade, como também seja alimento corroborativo e confirmativo de que ele não só não está cego, como até vê melhor que os demais. Pede ao outro que participe, para só ele participar.
O outro, aceita participar, (através da pseudo-imposição de “regras relacionais explicitas”, que o primeiro diz aceitar sem as compreender, regras diferentes daquelas que a visão do primeiro lhe permite aceder), até ter percebido que também ele não aguenta ser o que não é e que o primeiro lhe pede insistentemente que seja, um não ajudante, um possibilitante apenas, de que afinal estar cego é também uma forma salubre de ver.
(O primeiro, o outro.) Repete. Abandona. Encaminha. O insuportável conteúdo introjectivo, (que) tornou evidente a impossibilidade relacional.
Ambos percebem (n)a assintonia, a morte, a perda, o tempo. “Afinal de contas a culpa de estar cego antes de conhecer o outro é desse outro que agora conheci.”. Agora, o outro, passou a ser o bode introjectivo para a existência da cegueira do primeiro.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 30/03/2010