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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

“Terapêutica farmaco-medicamentosa.”

Como é do conhecimento geral, eu sou Psicólogo, e não é da minha competência profissional prescrever terapêuticas à base de fármacos para problemáticas do foro psicopatológico. Essa função diz respeito a outra entidade profissional: o Psiquiatra.
Devo desde já alertar que procuro propor aqui uma perspectiva construtiva e incentivadora da colaboração pluridisciplinar, em pról do melhor benefício dos pacientes. Este ponto aparece enquadrado numa concepção quase mitológica da rivalidade hipotética, subliminar e ao mesmo tempo tantas vezes obvia que existe entre estas profissões.
A etiologia desse quase mito, pode estar em várias componentes pseudo- abstractas, como a ameaça da Psicologia à Psiquiatria derivada do entrusamento entre competências profissionais, ou seja, ambas têm âmbitos de interesse similares, e sendo a Psiquiatria mais antiga que a Psicologia, uma sente-se ameaçada por outra...
Poderiam e não deveriam existir razões para tal hipotética divergência, já que embora o âmbito de interesse seja similar, os métodos de abordagem são diferentes. Mesmo assim há ainda quem defenda que um é melhor que o outro e vice-versa.
Na realidade não há um melhor do que outro, até porque se utilizados de forma competente são altamente complementares. Claro que em certos casos a psicoterapia como método de abordagem exclusivo é mais adequada que a terapêutica farmaco- -medicamentosa em seu complemento, o problema é que os casos em que se pode dizer o contrário são muito específicos.
Dizer o contrário é dizer que em certos casos a terapêutica farmaco- -medicamentosa é melhor sozinha. Ora, isso só faz sentido num número de casos muito restrito, e mesmo nesses casos de patologia grave e crónica a psicoterapia pode ter uma palavra a dizer no benefício dos pacientes, quer em relação à patologia em si e no que respeita às generalidades circundantes da mesma e tudo o que ela pode envolver, quer para a melhoria da qualidade de vida do próprio e dos que lhe são próximos.
Mas, dirigir a discussão temática nesse sentido nem é produtivo, nem é funcional para qualquer uma das entidades profissionais. O ideal seria procurar funcionar em complementaridade assertiva à revelia de discussões eternas baseadas em argumentos de qualidade no mínimo muito duvidosa.
Para isso, basta perceber que em muitos casos o paciente (alvo de todo o interesse dos técnicos) necessita de ambos profissionais para que possa ter benefícios reais, quer dos medicamentos, quer da psicoterapia. Mais do que isso, nesses casos seria altamente benéfico para o paciente que ambos os profissionais pudessem cruzar dados.
Basicamente, há pacientes cuja estabilidade actual e as condições psíquicas não lhe permitem o usufruto da psicoterapia, e nessa medida necessitam de ser medicados para que dela possam vir a usufruir assim que tenham as condições psíquicas necessárias à sua prática. Há também pacientes que têm todas as condições para a psicoterapia se iniciar sem qualquer medicação, que por qualquer razão vão primeiro ao Psiquiatra, e são muitas vezes medicados sem uma necessidade puramente real (também à Psicólogos que não enviam para a Psiquiatria pacientes que necessitam dela). Há ainda outros que vão à Psiquiatria na procura do comprimido mágico, que não é mais do que a anulação sintomática e não a resolução problemática da patologia em si. Estas pessoas querem tomar comprimidos a vida toda?
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 31/10/2005

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