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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

domingo, 14 de outubro de 2007

“Fugas por portas abertas.”


Quantas vezes deixamos passar ao lado, ou mesmo ao longe, um sorriso que poderia ter estado tão perto e não esteve sequer ao nosso alcance devido à nossa indisponibilidade para naquele momento sorrir? Se o nosso desejo era ter sorrido então o que nos impediu de o fazer?
Se a dado momento ou contínuo da nossa vida (por exemplo infância) não nos foi satisfeita a nossa necessidade afectiva ou nos foi continuamente frustrada, ou ainda, nos foi retirada a possibilidade de responder de forma natural e adequada àquilo que seria esperado que respondêssemos (exemplo: estar a chorar por motivos “válidos” e ser-nos pedido para parar de forma agressiva e injustificada sempre que isso acontece, ou vice-versa), então poderiam estar criadas as condições para o desenvolvimento de carências afectivas imbuídas numa possível criação de comportamento padronizado que tende a prolongar essa própria carência e a projectá-la no futuro.
Se a necessidade de satisfação afectiva não é concretizada de forma contínua o mais natural é que esse buraco colossal (vazio) tenha tendência a ser preenchido de alguma forma, de qualquer forma, e muitas vezes a qualquer custo. Um exemplo disso é o que acontece quando pessoas canalizam a sua necessidade de satisfação afectiva (sorriso) para a aquisição de bens materiais, de forma a compensar esse vazio. Numa tentativa de preenchê-lo de qualquer forma chegam mesmo a comprar de forma desmedida e a endividarem-se, não porque precisam, não porque a sociedade e o capitalismo pressiona, mas sim porque necessitam de afecto, necessitam de sorrir…

Quando o vazio se torna insuportável, ou se acaba com o vazio vivendo, ou se acaba com o vazio e com tudo o resto.

Parece-me claro a mim próprio que estas minhas palavras tão direccionadas são altamente redutoras de uma realidade que conta com muito mais do que isto, e cuja etiologia multi-factorial não está sequer aqui contemplada, mas parece-me ainda mais límpido que quem sente esse dito vazio de sorrir não tem sequer (por norma) o discernimento perceptivo para que se possa auto-conduzir ao caminho do preenchimento adequado, isto porque muitas das vezes esse preenchimento é feito ou no sentido inverso (morte) ou de forma descontrolada.
Essa descontrolada é referente às conhecidas crises psicóticas (como se podem considerar por exemplo os episódios maníacos), nas quais o indivíduo se rege por linguagem própria do inconsciente: os símbolos… Se comprar é igual a sorrir, então vou comprar custe o que custar… É quase como se obedecesse a si próprio (às pulsões) sem a capacidade de perceber que o que está a fazer terá consequências para além da satisfação imediata das suas necessidades afectivas… e, essas consequências são na maior parte das vezes graves, ou muito graves (e de forma nenhuma só ao nível financeiro).
Para que se entenda, andar (des)controlado por alguns ditames do inconsciente (fugas por portas abertas) sem que eles sejam regulados pelo valor e moral do subconsciente (imprimido) pode ser o mesmo que perder parte da dita consciência em prol do crescimento prático e final do determinismo real proveniente das pulsões primárias… Isto permite que alguém que teve por exemplo um episódio maníaco possa dizer: “Não era eu, eu não percebia o que estava a fazer! Fazia e pronto! Não me interessava quanto é que custava, eu queria e comprava… se fosse hoje nunca o teria feito, agora tenho vergonha do que fiz…”. A vergonha referida é em grande medida a parte da dita consciência que foi regulada pelos valores prévios (subconsciente) e que permitem ter ou não ter aquele comportamento, ou seja, a pulsão para a satisfação das necessidades afectivas canalizadas para por exemplo comprar bens materiais, quando regulada pela entidade intrapsíquica intermediária faz com que aquele comportamento não se materialize (naquela pessoa, e com aquele tipo de valores).

Será caso para dizer (?): “O sorriso do meu desejo… se o que eu desejo é sorrir.”


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 09/10/2007

2 comentários:

Anónimo disse...

Aproveito este espaço para deixar algumas interrogações resultantes da reflexão sobre o seu texto: as pessoas que tiveram uma infância com qualidade afectiva podem sentir-se carentes na idade adulta e não terem capacidade para se auto-equilibrar? Poderá a carência afectiva ser dirigida para a ocupação em múltiplas actividades, na procura de um (pseudo)sucesso que preencha o "desejo de sorrir"? Poderá o "vazio" afectivo resultar em comportamentos de exigência desmedida em relação ao "eu" e aos outros?
Parabéns pela crónica!

Princesa Desalento disse...

Caro anónimo,

ter uma infância contentora e com qualidade afectiva, numa personalidade estável, leva a uma adultice equilibrada e preenchida do ponto de vista dos afectos.
Contudo, nem todas as personalidades são estáveis nem um bom suporte parental depende apenas dos afectos, mas sim, da sua junção com regras, cedências, constância, etc.
Outra questão é perceber o que é para cada um "qualidade afectiva". Basta pensarmos nos casos de pessoas que eram vitímas de grande violência física por parte dos pais e, no seio dessa mesma violência, encontravam uma forma de amor...
As questões que coloca são de facto pertinentes e, com certeza, o autor da crónica terá uma boa resposta para elas. Na minha opinião, quer a busca pela ocupação constante quer a exigência desmedida em relação ao próprio e aos outros são outras duas portas para uma necessidade de fuga comum.

Ass: Bolaxinha