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sexta-feira, 9 de novembro de 2007

“Projecção (d)e Carências Afectivas – Alimentação Simbólica – II” (continuação)

Na última crónica ficou no ar a questão: “Será mais fácil comer o que não queremos (só para não percebermos que não temos o que queríamos comer?) do que sofrer com a ausência dessa comida desejada?”.

De facto, num momento inicial e imediatista parece natural que mais vale comer do que ter fome, mas e se a questão não tiver relacionamento com a fome, mas sim com o desejo por certa comida específica? Ou pior, se o que comemos não mata essa fome e ao invés ainda a salienta mais? Ou seja, pode até existir fome numa determinada pessoa, mas isso não significa que essa pessoa não tenha acesso a comida em quantidade suficiente que lhe permita saciá-la, e não significa também que a principal problemática esteja relacionada com a fome que essa pessoa sente, mas sim com a incapacidade, de origem diversa, em fazer com que essa fome seja satisfeita: a fome por comida específica.
Poderiam então vocês dizer que isso não é fome! E num contexto não metafórico até teria razão de ser essa pertinente refutação… Mas, afinal, o que é esta fome metafórica (?), senão uma forma explícita (ou implícita?) de carência (ou falta de…) daquilo que sentimos ser necessário para nós (mesmo que não nos apercebamos do que é que temos fome). Não é aquilo que queremos, nem o que gostaríamos de obter, mas sim aquilo que sentimos querer, o que sentimos desejar, o que sentimos que sem isso algo não vai bem dentro de nós e não vai ficar bem enquanto não o conseguirmos alcançar.
E, se não conseguimos alcançar aquilo que realmente sentimos ser do nosso desejo, muitas vezes tentamos satisfazer por proximidade, isto é, algo que nos traga satisfação parecida ou semelhante à satisfação que expectamos obter quando alcançássemos aquilo que sentimos desejar num primeiro plano.
Este tipo de transferência ou (re)direccionamento alimentar (afectivo), pode trazer diversos tipos de consequências que não têm que ter um carácter necessariamente negativo ou positivo, mas objectivamente não revela os mesmos tipos de resultados ao nível da satisfação das reais necessidades que estão por trás do próprio desejo (primário). Ou seja, a substituição do alvo afectivo por transferência de conveniência, pode traduzir-se pela incapacidade do sujeito, perante ele próprio e o seu meio, em alcançar o alimento que seria apropriado ao seu desejo alimentar. Se se substituir sempre, a capacidade de suportar a frustração pode estar contaminada, se nunca se substituir pode a capacidade de adaptação estar comprometida… Tal como as motivações que levam à substituição, poderão ser bons preditores do bom ou mau funcionamento alimentar (afectivo) do sujeito.

A metáfora da alimentação (alimentação simbólica) tem capacidade e competências atributivas a problemáticas tão diversas como por exemplo desde as adições patológicas, aos distúrbios do comportamento alimentar enquanto sintomatologia patológica secundária, às próprias patologias primárias. Basta substituir os termos metafóricos por termos apropriados aos phatos de etiologia predominantemente afectiva.

Onde está afinal a origem da fome?
Na falta da comida?
Na falta do auto e/ou hetero esclarecimento sobre qual a comida apropriada para a sua satisfação?
Na incapacidade em procurar a comida apropriada?
Na incapacidade em obter os recursos necessários para a obter?
Na incapacidade de resposta dos recursos disponíveis no meio?
Na incapacidade em perceber que se tem fome?
Na incapacidade em se reconhecer e se aceitar que se a tem?
Na incapacidade de comer?

As questões assertivas sobre a etiologia da fome serão sempre mais do que estas, que à fome de cada um se façam as perguntas apropriadas…

E você? Tem fome?


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 07/11/2007

2 comentários:

J. Conde Rodrigues disse...

Boas João,

Continua o bom trabalho.

Ah.. Bom Apetite! ;)

Abraço

João Conde Rodrigues

Leonardo Werneck disse...

muito bom blog!

volto pra ler teus textos.


abraço