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quinta-feira, 1 de março de 2007

“(Vi)ver uma outra qualquer.”

Fugir a uma realidade por “vício” na dor é consideravelmente diferente de fugir à dor para não vivenciar determinada realidade percebida como dolorosa. Poderia considerar-se mesmo como o oposto ou o contrário, mas de facto a essência potencialmente patológica tem ainda assim mais de semelhante do que de diferente.
Uma ou outra são formas distintas de lidar com uma realidade indesejável, mas ambas servem para um mesmo efeito, fugir a uma realidade que de tão dolorosa se torna díficil, insuportável ou “impossível” de ser vivida.
Ambos processos se consideram de fuga, pois ambos permitem ao indivíduo alhear-se do que o mundo externo lhes apresenta, distorcendo, inventando, reinventando, revivendo, uma realidade intra-produzida em consonância com a facilitação da necessidade da vivência imediata: “esta realidade é tão dolorosa que é melhor (vi)ver uma outra qualquer”.
Estas pessoas tendencialmente recusam oferir de ajuda, já que essa implica necessáriamente (vi)ver a realidade que excluiram de si, preterindo-a por uma menos má.
Por vezes fixadas nessa “mais fácil de (vi)ver”, não se auto-possibilitam de recursos apropriados que lhes permitam ultrapassar a dita dor que os persegue e que os consome quer seja numa ou noutra, quer queiram, quer não queiram, até fugir não passa de uma ilusão de que isso é uma possibilidade real: “fugir a elas próprias se sempre se acompanham”.
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 27/02/2007

1 comentário:

J. Conde Rodrigues disse...

Achei o Post Original, mais um diga-se entre outros tantos Posts de grande valor e importância, salientar também a referência final sobre o pedido individual de ajuda fortemente condicionado e limitador, lembro contudo que neste aspecto, e fico por aqui, já existe para casos graves a possibilidade de intervenção compulsiva mas de dificil aplicabilidade prática.

Decidi não fugir ao Post Original por estar recordado que nos encontra-mos em altura de discussão das salas de chuto, e já que estas discussões despertam na minha opinião mecanismos de defesa tais que rapidamente sofrem de um esquecimento curioso...
Devo verificar conscientemente que todas as dinâmicas, as atitudes e comportamentos defendidos por posições pró e contra reforma que nos chegam(por ex. muito clivadas diga-se!); devem ser analisadas à distância adequada e verificar/aceitar que por trás de grandes medidas estão muitas vezes, os tais, mecanismos involuntários ou inconscientes pessoais, normalmente para defesa do próprio mas que causam muitas vezes significativo sofrimento aos outros.

Desta forma é determinante nas posições tomadas por quem de direito reflectir de forma não primitiva!

Tal facto, poderá exemplificar um tipo de fuga à realidade como defesa de todas as vivências que tais discussões provocam, em todos nós (através da maior ou menor identificação projectiva individual e representação social da temática) correndo o risco de se simplificar, confundir argumentos, utilizar clivagens extremadas, menosprezar etc... uma questão fundamental para tantos indivíduos e famílias.

Continua com o teu contributo!

Abraço

João Conde Rodrigues
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