Bem vindo(a) ao PsicologiAveiro, o blog do ITAPA.
Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

1 de Março de 2017 estaremos em novas instalações: Avenida Doutor Lourenço Peixinho n.º128, 1º andar, 3800-160 Aveiro

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Tertúlia “De como ir colhendo um Universo - Incursão musical, poética e imagética” com Ricardo Grácio





O ITAPA convida Ricardo Grácio para uma tertúlia sobre o modo como o autor descobre um Universo que se apresenta diante dele, recorrendo para isso a instrumentos como a música, a poesia e a fotografia, acompanhados pelo seu espírito crítico e indagador, semelhante à curiosidade tão típica das crianças.


Espera-se uma conversa informal e aconchegada em diálogo livre e espontâneo com os participantes, sendo acompanhada por exposição fotográfica e viagem pela obra do autor, que conta com livros de poesia, prosa e mais recentemente um álbum musical intitulado “Coisas com Tempo”.


Seguir-se-á uma pequena ceia, prolongando o convívio.


Informações e inscrições através do e-mail: geral.itapa@psicologiaveiro.pt

Vagas limitadas a 15 participantes.
Entrada e inscrição gratuitas.



ITAPA - Instituto Terapêutico Analítico Psicologia Aveiro
Rua dos Combatentes da Grande Guerra nº43 1º andar, 3810-087 Aveiro


Sábado, 23 de Maio às 21:30

terça-feira, 26 de junho de 2012

Sexologia Clínica

O ITAPA dispõe agora também de serviço de Sexologia Clínica.


O serviço de Sexologia Clínica do ITAPA disponibiliza um tratamento especializado em Sexologia e Terapia Sexual segundo os padrões da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica. Todos as pessoas são atendidas em máximo sigilo, directamente pelo técnico com quem foi feita a marcação prévia da primeira consulta. Só após (pelo menos) a primeira consulta se irá inter-decidir sobre o processo terapêutico e os seus trâmites. 

“A actividade sexual é também uma expressão comportamental da sexualidade e do desenvolvimento humano que quando se encontra em desarmonia pode provocar  problemas pessoais e relacionais. A saúde sexual é pois uma área de particular importância no nosso bem estar físico e psíquico. Neste sentido, a terapia sexual pode ser um suporte fundamental para o restabelecimento da qualidade de vida do(s) indivíduo(s). Nela podem ser tratados diversos problemas, tais como: disfunção eréctil, patologias do desejo, frigidez, vaginismo, ejaculação prematura e retardada, problemas de relação conjugal, situações relacionadas com a orientação da sexualidade, situações relacionadas com a integridade corporal e sexualidade.


Quando se fala de sexo, não existe certo ou errado, existe apenas o que faz sentido e funciona com a maneira de ser de cada um. No entanto, é importante não esquecer que 1+X=1, ou seja, esta nova entidade (relação) criada por duas ou mais pessoas tem características próprias, únicas e, por consequência, necessidades específicas também. Os corpos vão-se conhecendo cada vez mais, descobrem-se e podem ir de encontro aos desejos e vontades de cada um dos envolvidos. Talvez por esta razão o sexo, por exemplo numa relação de casal, devesse ser cada vez melhor à medida que os anos passam... então porque razão tantas vezes esmorece e deixa de ser emocionante? Aqui, outros factores, para além dos individuais, encontram-se implicados. A monotonia dos dias, o stress, a pressão, a pressa dos ponteiros do relógio, as responsabilidades da vida, as preocupações, as doenças físicas e psíquicas, etc.. levam à necessidade de se descobrir novas formas de intimidade e de redescobrir paixões perdidas pelos anos.

A terapia sexual pretende ir ao encontro de todas as dificuldades que emergem no seio de duas ou mais pessoas cuja comunicação na intimidade se encontra parcial ou totalmente fechada, ou ainda num indivíduo, separadamente, que num determinado momento da sua vida, por exemplo, não se sente bem com o seu corpo e com a sua própria sexualidade”.

  Alexandra Loureiro,  Coordenadora e Surpervisora de Sexologia Clínica do ITAPA

segunda-feira, 12 de março de 2012

“A porta blindada do muro de cartão.”


 
...encostado ao meu canto, cuidadosamente, faço de conta, entusiasmo...”

Parece imperar [(in)desejavelmente] a dificuldade de expansão, da liberdade de ser-se participante, no (re)encontro com esse que afinal não se torna assim tanto num novo outro, e, que se assemelha tão similarmente aquele(s) cuja falta ainda procura colmatar.
O desejo (e o entusiasmo?) não está todavia tão perdido, nem passou a (in)existir, “só” não se mostra da mesma forma que se espera vê-lo para que possa ser reconhecido com tal. É como um beijo com sabor a estalo ou como uma chapada com calor de abraço.

...e assim digo que te amo, mas pareces nem ouvir sequer que to digo, quanto mais que o sinto...”

Envolto em pertinentes e justificadas “queixas”(?), “não foi feito, não foi dito, não esteve (...)”, não entende (embora compreenda) que hoje (ainda lhe) faz (a mesma) falta, “não fazer, não dizer, não estar(...)”, tal como sente que foi, também se vai (re)sentindo, repeticional e quase ritmadamente, dessa mesma maneira. Mas vai, “(con)sentindo”...

...por favor, para além das palavras...”

Quase súplica, “evidentemente” transferencial, que se se entremeia por entre ferozes ataques, (defesas) de elaboração complexa e completa, inabaláveis não fora o muro de cartão que defende, através dessa porta blindada, a dor de se sentir só, acompanhada da culpa de sentir estar sozinho.
As palavras” parecem ser demasiadas vezes “as coisas” sem (se ter) sentido, sem sentir, “...aquelas que se podem comprar e que se podem possuir não são as mesmas que procuro, mas são nelas que me encontro... As (“coisas”) que me fazem falta, não se explicam pela física nem se dão porque alguém as fez... Só se podem sentir...”.

Pior é compreender e sentir nisso uma impossibilidade de mudança...”

Transferida nas perguntas dos porquês (que nos devolve uma pseudo-fixação a um estado infantil), parecendo não entender “(...)por que raio sou assim?” (im)possibilitando-se, em defesa do (re)viver emocional, a resposta do “...por que raio me sinto desta maneira?”.

Nada como o fundo ser negro, a folha ser branca e as palavras serem de ambas mesmas cores...”

A (i)legibilidade dessa escrita fantasmática sombreada pelo contraste ausente, informa-nos (também) da precisão obsessiva com que aquelas dores são protegidas, ainda assim tão fragilmente pintadas a traço de obscura (depressiva) e clarividente (maníaca) perda de amor.

Abandono a minha própria vida como única forma de vos fazer perceber, de vos dizer, que me senti e me sinto abandonado por vocês... Vocês parecem continuar a não ouvir, e assim, eu vou continuar a não (vi)ver...”

Abandonar a própria vida, como se isso pudesse ser uma montra que “alguém” vai poder finalmente apreciar, “dizer simplesmente não chega, é mesmo preciso sentir”. Abandonar a própria vida, como forma de dizer “...vejam, é isto que eu sinto, repito agora o que me fizeram a mim, fazendo-o a mim mesmo... e quem sabe aos que me rodeiam... e fazer isto que odeio aos que mais amo, continua a ser a minha precária forma de os gostar... a forma como gostaram de mim...”.
Fá-lo em mutismo de partilha visível, embrenhado na divina musicalidade que o acompanha como se fora a sua própria permanente ligação ao mundo externo, uma música de segurança, que faz soar a vida a um filme, onde as cenas, as melhores cenas sempre vêm de mão dada com aquele tema de encaixe perfeitamente poetizado.

Onde te encontro então? Se não é nas palavras, e se é só através delas?”

A liberdade do conforto é também o eufemismo no ardor da amplificação: “Ainda existe, demasiada, dificuldade em aceder ao trabalho interno daqueles órgãos, dos quais os exames mostram a phatogenia, mas não nos esclarecem sobre o seu funcionamento autónomo. Os diagnósticos, parecem ser, agora e cada vez mais, imprudentes formas de nomenclar, de colocar em catálogo os resultados dos testes efectuados aos órgãos internos, mais, uma e outra vez, não caracterizam um entendimento sequer próximo da dinâmica, quanto mais do seu significado. Não é visível a profundidade do enfermo (emocional), sequer se ele de facto existe (?).”

Castanheira, J. (2011). A porta blindada do muro de cartão. Portal dos Psicólogos
ISSN: 1646-6977 - nº 384 | 12 Mar 2012


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

“Literalidade e latência: da verdade unicista à mudança idiossincrática.”


Para além da literalidade e da latência, estão tantas vezes as verdadeiras mensagens, onde a  genuinidade e a veracidade parecem encontrar-se na relação entre o que se expressa e o seu significado para além da sua própria aparência. Isto é, não é numa, nem noutra isoladamente que podemos achar os reais significados, da comunicação intra e extra-psíquica, mas sim na sua inter-relação dinâmica. O trabalho de leitura analítica da vigília deve, apesar de tudo, regular-se pelos mesmos ditames analíticos do trabalho dos conteúdos oníricos: entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente.
Não é propriamente novidade, que o conteúdo manifesto seja também representativo de conteúdos latentes, e, que o significado total/real, [ou pelo menos, proximal da(s) verdade(s)] da intra e/ou extra-expressão psíquica, seja tendencialmente incompleto quando compreendido apenas nessa face que se mostra (superfície) ou na outra que não se vê (profundidade). No entanto, é com alguma cautela, e até delicadeza, que a interpretação das “preciosas verdades intra e/ou externo-relacionais” deve ser feita, já que se a busca pretender encontrar uma espécie de verdade única (“a verdade” e/ou “a interpretação”), então não haverá espaço para a amplificação do conhecimento interpretativo que permite (e tantas vezes possibilita) a existência da mudança (terapia), para em vez disso se assumir uma medíocre cristalização de algo, que por ser dinâmico (à própria imagem do universo mental) não se poderia considerar como digno de real, se imutável.1

  • 1 Ainda assim, poderíamos, e talvez devêssemos, pensar um pouco em ditas entidades em forma de quadros (ou quadrados) patogénicos, onde a fixação parece presidir, quer à formação do próprio estado, quer à manutenção aparentemente repetitiva e imutável do sujeito. Ou seja, como se duma dinâmica estática se tratasse, que é o mesmo que dizer que o estado seria estático pois a única dinâmica apresentada seria a própria repetição de uma dinâmica em particular, repetida vezes sem conta, por vezes até à exaustão, aquilo que por exemplo alguns apelidaram e chamam (também) de “Repetição Relacional Patogénica” [onde o indivíduo vivência as novas situações à imagem das situações antigas (fixação referencial)].

Vejamos um exemplo de associação livre retirado de uma sessão de terapia (com autorização e confidencialidade asseguradas), onde a vigília se parece encontrar com o sonho, e o espaço de libertação (e até de libertinagem “psicótica”) se abriga na segurança da possibilidade de fantasiar o que realmente se fantasia, sabendo que é naquele espaço que se pode ir lá sem lá ficar, permitindo o regresso e a regressão (ou tantas vezes a mera visualização interpretativa) a estados onde, por exemplo, “o indivíduo ainda nem é indivíduo, e o mundo ainda não é mundo, do útero fusional à ausência de sexo”:

  • “(...) Não é, uma qualquer dor que me assola… Não é? São os campos que de arroz se estendem até ao teu rosto, são. Que consolo se aloja na perdiz? Qual esforço, subindo ao encosto de um banco de jardim. Agora fá-lo, ora surpreende o entusiástico reparo que não vi. Quem era aquela janela, sentinela? Dispersão. Pressionarias aquela tecla que jamais ousaria toar-te daquele som. Aberta pela supérfula via do engenho frutífero. Não mais queria tê-la comigo, aquela janela que abrigo. (pausa) Ainda agora comecei as primeiras letras e já me vejo a olhar as palavras, que fogem pela parede e se encontram nas calmas serenatas de horror. O espreguiçadouro de Miornot, era antigo, ansião-lítico, do mesmo tipo que abismo. Quem ousa compreender estas arrogantes palavras? São também os cintilantes brilhos parquíssimos de gralhas? Para quê perder o significado de cobrir o telhado de firmes orlas de cor. Contra-pé delegado para sair caro o sabor. Não digo nada, deste mais tudo que desaparece num seguro milionésimo de calor. Servidos os quadros, parecem vidros de ligação. Permanecem permitidos apenas os que queimam agreste salva. Sejam soltas. Não querem ser mortas. Mas são. (pausa) Aquém destemida sai pelo portão de balancé. Sai pela porta que é entrada do que é. Aflige. Recomenda. Atrai-se para a contro-ladainha. Para se voltar a ver que aquela, era minha.(...)” 

Convém referir que apesar da contextualização de luz exemplificativa, o trecho de sessão acima transcrito apresenta-se intencionalmente desprovido do contexto original, quer da sessão onde emergiu, quer da própria terapia, o que pode levantar com enorme facilidade os reducionismos mais precários sobre o que realmente estaria a ser “dito”. Independentemente disso, a intenção é mostrar com realidade analítica aquilo que dá título a este texto, ou seja, que da literalidade do que é dito e da latência que contém, pode ser expandido o auto-reconhecimento de significado do que normalmente não é dito, nem ao próprio e muito menos ao outro. Por outras palavras, no espaço onde o Eu se permite encontrar com o outro, pode dar-se também um renovado auto-encontro, diferente de um encontro repetido (sob a alçada dos meramente encontros passados). Talvez importe dizer que é, também, nessa livre expressão que tantas vezes os elementos de conteúdos deslocados para objectos invariavelmente insatisfatórios e consequentemente produtores de sinais e sintomas, se recolocam na via da possibilidade (previamente transferencial) do encontro com objectos realmente possibilitantes da satisfação e/ou frustração (satisfatória), aqueles que podem dar caminho ao percurso para a resolução [do(s) conflito(s)], por serem os apropriados (ou por serem pseudo-substitutos sublimantes suficientemente capazes de o serem).
 Claro que é, também muitas vezes, o facto das características dos objectos receptores (apropriados à satisfação e/ou frustração dos conteúdos latentes, por exemplo desejantes) serem inapropriadas para os conteúdos dinâmicos do Super-Eu que tornam o caminho desviado, quer da satisfação, quer da frustração (satisfatória), já que o deslocamento (para objectos diferentes daqueles que podem adequar-se aos conteúdos emergentes) viabiliza mormente acontecimentos sinalético-sintomáticos que podem ir, por exemplo, desde a fixação obsessiva no objecto deslocado até à psicose paranoide. Ambos exemplos, de apresentação defensiva e sinalética da depressão subjacente à (im)possibilidade do encontro amoroso interno e do posterior encontro amoroso (satisfatório e/ou frustrado) com objectos apropriados e reais do mundo externo: a liberdade para o Eu intra-integrado e para a saudável relação com o outro (no e do mundo extra-psíquico); ou, a liberdade para a auto-aceitação intra-integrada do Eu e libertadora da aceitação, possibilidadora e possibilitante, do encontro com os objectos apropriados e reais do mundo externo; ou ainda, do conflito intra-psíquico aniquilador do funcionamento sanígeno à resolução integradora do Eu, permissora e propulsionante, do funcionamento saudável.
Parece fundamental fluir espontaneamente [diferente de não pensante, diferente de só sentinte (?)] para que a expressão do(s) conflito(s) possa ser também uma aproximação à sua resolução, que é também a mudança da parte vitoriosa (quando existente), não necessariamente para parte derrotada, mas muito para a coabitação integrada (tendencialmente) pacífica das “partes em conflito” (partes da (intra)psique em conflito - conteúdos inter-instâncias e/ou intra-instâncias). Por exemplo:

  • Tantas vezes, a “solução” está no mediador do conflito (p.e., Super-Eu) e tantas outras nas partes aparentemente (e/ou de facto) em guerra, isto é, acontece por vezes, que os conflitos parecem ser entre conteúdos de duas instâncias (p.e., entre o inconsciente e a “quase-pseudo-consciência”), mas no fundo essas (instâncias) podem estar também em luta/trabalho para a agradabilidade do Super-Eu.
  • [Mesmo os conflitos psicóticos, são também conflitos neuróticos (intra-psíquicos, maioritariamente depressogénicos), que depois se podem revelar (principalmente) na tipologia de conflito psicótico: mundo interno versus mundo externo (mesmo que originariamente se tenham formado por ditames desta própria relação: “Eu versus mundo externo” - o que também permite dizer, não de forma meramente invertida, que também os conflitos neuróticos têm como entidades basilares conflitos psicóticos)].
  • A agradabilidade ao Super-Eu, é também, necessariamente, a agradabilidade [(in)directa] aos cuidadores primários (já que esses, são os principais contribuintes/impressores para a formação do Super-Eu, inicial e basilar, e até para a sua existência), o que revela e torna relevante a dinâmica relacional do sujeito com o(s) outro(s) na sua vida mais tenra, como um dos principais impulsionadores conflituais ao longo de toda a vida do indivíduo humano. [Impulsionadores conflituais e/ou impressores das bases para a forma de lidar com as relações (dessa actualidade e posteriores) - internas e externas, da relação de objecto primário, à relação de objecto secundário, até à “nova relação” - posteriormente tornada potencial e/ou aparentemente principal.]
  • [Parece-me necessário salientar (apesar da postura meramente exemplificativa/ilustrativa e não contemplativa da realidade global) que também existem conflitos intra-instância-psíquica, isto é, aqueles que ocorrem dentro de uma única instância psíquica (p.e.: duas ou mais entidades/conteúdos desejantes simultaneamente incompatíveis - id; duas ou mais entidades/conteúdos de valor e/ou moral simultaneamente incompatíveis - Super-Eu; etc.), para que se possa elevar e/ou aprofundar o pensamento (talvez principalmente sobre os afectos - essas entidades de conteúdo, determinante e determinador, sobre outras entidades psíquicas especialmente subjugadas a essa tão subjugatória). Por outras palavras, este tipo de conflitos (que podem ser de etiologia diversa - de dinâmica relacional intra-instância-psíquica, intra-psíquica-inter-instâncias-específicas, intra-psíquica-global, todas as hipóteses anteriores na relação entre elas, e, todas as hipóteses anteriores na relação com o mundo externo) podem ser considerados como elementos de potencial fomentador de desencadeamento sintomático-patogénico (visível), com ou sem luta/trabalho pela posterior agradabilidade aos ditames residentes no Super-Eu, já que muitos desses conflitos não chegam a sair da sua instância, sendo resolvidos intra-instância, ou não sendo resolvidos podem também permanecer apenas dentro da instância em questão sendo percebida a sua existência  maioritariamente através de conteúdos literais simbólico-representativos.]
  • Ainda a título de exemplo e para alargar a discussão, poderíamos pensar no potencial de patogenia decorrente de um Super-Eu “formado” por cuidadores primários em conflito e/ou em desacordo, p.e. um pai e uma mãe em desacordo e/ou em conflito na educação dum filho, e/ou um dos pais (ou os dois) com mensagens psicotóxicas. Não se deverá com isto pensar que será menor o potencial de patogenia de alguém com um Super-Eu formado principalmente através da relação com cuidadores primários que estiveram maioritariamente concordantes e com mensagens explicito-saudáveis (não contraditórias), já que a tarefa dos cuidadores primários é talvez uma das mais difíceis/exigentes tarefas da condição relacional humana, e também por isso, sujeita a ainda mais limites e falhas (não querendo com isto dizer que as falhas e os limites o são realmente, e, não querendo dizer que as outras tipologias relacionais são mais fáceis ou que não têm também limites e falhas, mas querendo dizer que as dificuldades das outras tipologias de relação são tipicamente, directa ou indirectamente, decorrentes das primeiras). Ainda podíamos juntar a este exemplo, a conjuntura de diversidade de cuidadores primários (principais) que pode existir, [desde um só pai a uma só mãe, a pais divorciados (com ou sem novo(a) companheiro(a)), à ausência de pais (com ou sem pseudo-substitutos), a pais adoptivos, a dois pais do mesmo sexo, etc.], estas e outras características do mundo externo, que depois de internalizadas idiossincráticamente se assumem como partes integrantes e autónomas do indivíduo.  

Assim, da psique em conflito (entre ela própria e/ou entre ela e o mundo externo, ou ambas), podem nascer duas grandes tipologias (de referência, mas não únicas) de visibilidade (literalidade) da existência conflitual, que é naturalmente permanente e necessária, como funcionamento regular e integrante da própria vida psíquica:
  1. (no) funcionamento sanígeno - a visibilidade conflitual apresenta-se, ao próprio e ao outro, em formato de sublimação partilhada (p.e.: actividade/expressão visível da resolução do conflito pela via do deslocamento objectal aceitável, suficientemente bom para uma real satisfação/frustração);
  2. (no) funcionamento patogénico - a visibilidade conflitual apresenta-se, ao próprio e/ou ao outro, em formato de sinal e/ou sintoma (p.e.: actividade/expressão visível da existência, contínua e continuada, do conflito sem que este encontre uma resolução suficientemente pacificadora para deixar de o ser).

    Desta forma, torna-se imprescindível, pelo menos referir que as generalizações acima (1 e 2), são no mínimo perigosas e absolutamente reducionistas das possibilidades infinito-limitadas a que a especificidade de caso impõe. Se quisermos uma análise cuidada, teremos que ir mais longe, até porque muitas vezes é extremamente díficil de distinguir as verdadeiras diferenças, quer entre  “sublimação partilhada” e “sinal e/ou sintoma”, quer entre “funcionamento sanígeno” e “funcionamento patogénico”. Ir mais longe, não passa apenas pela mera distinção, poderá ter que passar por entender que em ambos funcionamentos, independentemente de qual, a necessidade de compreensão dos afectos (e de toda a sua gigantesca envolvente) pode ser uma ponte/caminho entre, por exemplo, o mesmo humano, criar ou destruir, perante exactamente a mesma situação. Será errado pensar-se, sequer, por exemplo, que alguém em funcionamento patogénico estará mais próximo de destruir do que criar, do que aquele em funcionamento sanígeno, tal como (agora sim) o meramente inverso(?).
    Para se chegar ao encontro da diversidade interpretativa, parece ser preciso encarar a dita normalidade como uma “meta-normalidade”, isto é, o que está para além dela própria é tantas vezes, também, o que a constitui como tal, não pela diferença, mas pela pertença:

  • “Não basta dizer-se que alguém não joga com o baralho todo, quando tantas vezes até joga com mais (ou outras/diferentes) cartas, se ainda por cima a própria pessoa que disse que alguém não joga com o baralho todo, joga com o mesmo baralho que essa outra pessoa inventou”. Até que ponto as psicopatologias não são também pertença da dita normalidade, já que sem elas, tantas vezes, não haveria, por exemplo, algumas grandes criações [através dos grandes (des)equilíbrios],  que depois são utilizadas pelos ditos normais, na sua dita normalidade?

    No entanto, parece ser no e do encarceramento sobre si próprio que se encontra o verdadeiro disfuncionamento e/ou funcionamento verdadeiramente patogénico (uma espécie de psicose permissora do funcionamento intra-neurótico como o funcionamento quase exclusivo), isto é, na não partilha da criação funcional (p.e. criação artística não partilhada - apesar de ainda assim esta poder ser, por vezes, verdadeiramente funcional por cumprir a função sublimatória, ainda que sem ser partilhada ao outro) e na não criação funcional ou criação de actividade disfuncional (p.e. actividade obsessivo-compulsiva de verificação da fechadura de uma porta).
    Por fim, importa novamente questionar (verdades tidas como elementares e seguras, quase religiosamente dogmáticas e, por isso extremamente difíceis de se acreditar sequer que se podem colocar em questão), para que a mudança seja realmente idiossincrática e não mera pertença a uma pré-verdade unicista, onde cabe tudo e todos, o que se torna tão parecido com o mesmo que nada. Como por exemplo, até que ponto existe de uma verdadeira consciência, enquanto instância intra-psíquica? A análise da análise2, serve de exemplo para a hipótese da impossibilidade duma verdadeira consciência do presente, considerando o presente como a única existência real (única realidade em que realmente vivemos/estamos - “o aqui e agora”), podemos então também considerar a consciência como uma pseudo-consciência e a pseudo-consciência como uma quase-pseudo-consciência do passado e do futuro (sendo que toda e qualquer forma de “consciência” se dá exclusivamente no presente)?

  • 2 Primeiro é necessário sentir para depois pensar os afectos, não é possível pensar sobre o que se sente sem se ter sentido primeiro. (Já que pensar sobre o que se está a sentir no próprio momento que se sente implica, no fundo, pensar-se sobre um passado ainda demasiado recente para ser distinguido do presente. O presente passa instantaneamente, uma velocidade cuja capacidade perceptiva humana não consegue destrinçar.)



Castanheira, J. (2011). Literalidade e latência: da verdade unicista à mudança idiossincrática. Portal dos Psicólogos. ISSN: 1646-6977 - nº 365 | 31 Out 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

“Censura por transferência quotidiana.”


“(…)A polícia vai surgindo na minha cabeça, a cada curva e em cada esquina, imagino-os lá à frente, chego a ver as luzes e os coletes reflectores, como se houvesse alguma coisa pela qual eu pudesse ser multado(a), como se fosse necessário eles estarem lá para reprimirem aquilo que me vai chegando à consciência(…) Chego mesmo a ficar nervoso(a), a tremelicar, com medo de ser apanhado(a) na operação-stop que se aproxima, onde após uma vistoria detalhada ao meu carro, eu tenha que pagar uma multa e lidar com esse prejuízo, mesmo sabendo que na verdade tenho tudo em ordem(…)”
A transcrição acima de uma sessão de terapia (devidamente autorizada e com a confidencialidade assegurada), revela-se como um exemplo caricaturante de uma forma de transferir a censura interna de conteúdos inconscientes, emergentes, mas inaceitáveis e censuráveis pelos valores e pela moral, para uma censura aparentemente externa. Transformando-os “deslocado-projectivamente” em realidade quotidiana imaginada, a censura do (pretenso) outro actua na ausência do funcionamento eficaz da censura interna para esses conteúdos latentes, que encontram agora espaço para se libertarem da polícia interna (expressando-se pela polícia da realidade externa), e que esse Eu encontra, numa desesperada tentativa de último recurso, uma forma alternativa de continuar a não ver, ou de ver “transferencial-distorcidamente” aquilo que ainda não consegue ver como de facto significa.
Por outras palavras, a censura continua a ser de facto interna, apesar de se tentar munir de recursos percebidos como do exterior. A representação simbólica apresenta-se como uma arma, talvez uma das últimas, para a manutenção da vitória que até então pertencia a essa instância “consciente (apenas) do tolerável/aceitável”, mas que agora se vê a perder nesse conflito. As armas do inconsciente parecem ainda assim utilizar essa mesma arma defensiva da subconsciência para a atacar, dando-lhe expressão simbolizada na “pseudo-consciência”: “se não vês pelo que é, verás pelo símbolo que o representa”.
Parece ser típica esta transferência, onde são utilizados meios simbólicos através de elementos (possíveis de serem) reais (e) da realidade (quotidiana), para se “falar e dizer” coisas que não conseguem ser ditas directamente, devido a tantas vezes essas mesmas coisas serem demasiado perturbadoras e perturbantes para serem possíveis de serem “faladas e ditas” na sua forma primária/originária de significado. No fundo, utiliza-se um assunto “legítimo” em representação de um outro “ilegítimo”, aborda-se um tema que é aceitável para dar expressão a conteúdos que não o são.
O medo de ser apanhado pela polícia representa também o medo de se revelar a si próprio coisas que não estão “em ordem” e que são passíveis de “(auto)coima”, pois transgridem a lei (interna). O emaranhado intra-psíquico em conflito, encontra-se num enredo onde a punição interna já não basta para exercer de forma eficaz uma censura que faça permanecer inconscientes esses conteúdos (e, também por isso se recorre a ajuda da censura pseudo-externa). Agora, a necessidade de integração consciente torna-se imprescindível à resolução do conflito, já que parece não ser mais possível manter ou reenviar para o inconsciente os conteúdos perturbantes e perturbadores da (fantasiosa) homeostase pacífica do Eu. 
Para além disso, surgem ainda outros problemas: os conteúdos não deixarão de existir mesmo que sejam devolvidos ao inconsciente ou mesmo que nunca cheguem a ter uma oportunidade para se significarem na “pseudo-consciência”, e também, não deixarão de se tentarem expressar conscientemente (ainda que da forma possível/simbólica) enquanto não houver um objecto (receptor) capaz, sublimante ou directo, de satisfazer realmente a sua existência. 
Ou seja, os conteúdos existem quer o indivíduo queira ou não queira, quer os aceite ou não, e não irão deixar de existir só porque lhe são intra-desconhecidos. Mais, só parece ser possível que eles deixem de ser elementos perturbadores e perturbantes (tantas vezes disfuncionais e desencadeadores phato-sintomáticos) quando o “eu inteiro” encontrar espaço para a co-existência intra-psíquica tendencialmente pacificante entre os conteúdos emergentes do “id” (*desejo ainda latente) e a permissão (“consciente-directa” ou “inconsciente-subliminante”). Isso parece só acontecer, quando esses conteúdos do “id” encontram um objecto receptor suficientemente satisfatório e permitido simultaneamente pela censura (pois, por exemplo, se os ditos conteúdos encontrarem um objecto suficientemente capaz de os satisfazer e esse encontro com o objecto for também ele (re)censurado, o indivíduo encontra uma espécie de continuação do conflito anterior, agora com uma nova/diferente parte a vencer de facto o conflito).
*Revelo-vos agora, de forma meramente ilustrativo-reducionista, que os conteúdos correspondentes ao simbolismo do trecho inicialmente transcrito, são compostos (não só mas também) por pulsões sexuais, que fazem com que o indivíduo deseje objectos, proibidos por ele próprio. Não encontrando uma via para poder integrar de forma minimamente tolerável a concretização da satisfação genuína do desejo sexual, sequer com a tolerabilidade da sua existência, o conflito intra-psíquico decorrente da existência de “desejos indesejáveis” manifesta-se assim sintomaticamente numa quotidiano-disfuncional e disfuncionante quase paranóia persecutória, incontrolável, em correspondência com o incontornável desejo, que não encontra espaço para a satisfação relacional com o objecto. 
Ainda, por outro lado, a quase paranóia persecutória, também por ser incontrolável, encontra-se (também) com a defesa obsessiva de controlo aparentemente do mundo externo, numa tentativa, frustrada por ser deslocada (do interior para o exterior), de controlar aquilo que é por defeito incontornável/incontrolável na vida intra-psíquica do indivíduo, como é exemplo disso o desejo sexual (sucintamente) referido acima. Parece que, por muito que se “queira” não é possível escolher o que desejar ou que desejos ter (ou não ter), tal como não me parece exequível “escolher” uma nova “cor” para genuinamente se gostar, “só” porque seria “conveniente” gostar de outra “cor” que não aquela de que realmente se gosta (se é que se gosta dessa “cor”). 
Assim, quando esses “desejos não escolhidos” se tornam (im)pulsionadores disfuncionais do indivíduo, intra-psiquicamente e consequentemente na sua relação com o mundo externo, então acaba por ser (parcialmente) “desejável” lidar com esses indesejáveis não escolhidos de forma a restabelecer ou estabelecer a sanigeneidade (integrativa do Eu) também ela (parcialmente) desejada. Parte deseja, parte deseja não desejar, outra parte deseja outra coisa, o todo parece precisar compatibilizar os desejos incompatíveis (em simultâneo), para não se clivar patologicamente e poder assim prosseguir num caminho em que realmente se sinta a andar.
Castanheira, J. (2011). Censura por transferência quotidiana. Portal dosPsicólogos.
ISSN: 1646-6977 - nº358 | 12 Set 2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

“A quase pseudo-consciência relacional – Só: ser, estar, sentir (?) – uma (também) alusão à relação terapêutico-analítica.”


Nota introdutória: “palavra(s)” têm no texto seguinte uma dimensão semântica que ora se enquadra no seu literal significado, ora se encontra simbolizada, e, tantas vezes o discernimento da sua significação engloba ambas, ficando por vezes dúbia a aplicabilidade do quê a quando, permanecendo uma dúvida imprescindível e intencional à amplitude do sentir idiossincrático.

            (…) “Nunca antes aquelas simples e parcas palavras tinham tido valor, até que X mas disse!” (…) Daquela pessoa, aquele dizer transformou-se, transformou (ganhou valor, nasceu e ficou vivo). Não é o que as palavras dizem (per si), nem mesmo (só) o que elas nos querem dizer, é também o que quem as diz nos diz, de nós na relação com essa pessoa, nos diz dele e (talvez principalmente) dele em relação a nós, isso pode dizer-nos tanto sobre quem (também) somos… (poderíamos também pensar as palavras no sentido inverso, de nós para o outro, mas “aqui”, pretende-se visualizar, para já, a perspectiva daquele que nasce com o outro com quem aprende a “falar – com ou sem palavras”) … As palavras deixam de o ser, quando nelas, entre elas, não há relação (intra e/ou inter-humana)… Tal como deixaríamos de ser(-)humanos se fosse mesmo possível “real-mente” estarmos sós.
           
É sim possível sentirmo-nos sozinhos… [Por muito que seja difícil de compreender e aceitar, “aqui”, podemos, também e até, dizer que nunca estamos acompanhados, tal como nunca estivemos e nunca iremos estar, e isso, é de facto tão “lógico” quanto dizer precisamente o contrário… no fim (e no “princípio”) o que conta, o que prevalece, o que é mais forte, é o sentir – mesmo que tenham sido criadas (e mantidas) hiper estruturas e/ou organizações “(phato-)defensivas” (que não permitam, por exemplo, o encontro da pulsão com o objecto receptor, real ou “substitutivo-subliminante”, e que em vez disso as conduzam ao sintoma patogénico, sinal disso mesmo).]
           
Por muito que custe aos mais “fundamentalistas-absolutistas”, “este”, é um daqueles que se lhes abarca nos seus próprios conceitos de plenitude fantasmática, mas que os destrona pelo próprio premissar da inviolabilidade “fantasioso-racionalizante”: “simples-mente” sozinhos não existimos, até porque não conseguimos literal e “simbólica-mente” (sobre)viver.
           
Encontramo-nos no outro (e com o outro), o outro em nós, e o nós na relação (encontramos a partir de “aqui” um espaço para o vice-versa?). Talvez por isso a sensação de perda e do perdido se associe, uma e outra vez, ao sentimento de solidão… a depressão (que) começa no desgosto de “Amor”… tantas vezes no mais “primário”, repetido (à sua similitude, e por vezes até à exaustão) nas relações de objecto “secundário” por essa vida fora… até se encontrar “O” novo objecto na “nova relação primária”.

Claro que também estas palavras «até se encontrar “O” novo objecto na “nova relação primária”» seriam/serão apenas lugares vazios na plateia de um qualquer teatro onde nenhuma peça sequer está a decorrer, se a elas não juntarmos, não uma qualquer, mas “A” peça, “A” plateia e “O” teatro. Mesmo, e apesar, da pretensa metáfora se imiscuir no seu próprio reducionismo (in)tolerável, permito-me ainda assim, “com vocês”, “A-riscar”. 

Crónicas da Mente Esquecida,  por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 08/02/2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

“A quase pseudo-consciência relacional: o conflito e o confronto (resolutivo).”


Parece, até, que seria “normativo” pensar-se que as relações sanígenas seriam aquelas desprovidas de conflitos (com confronto), mas o que torna as relações com potencial de sanigeneidade é, também, a existência de espaço relacional para o confronto (preferencialmente com intencionalidade resolutiva) dos conflitos que necessariamente, nelas, têm que existir (quando elas são relações tendencialmente genuínas, verdadeiras).
No entanto, até se entende esse pensamento, desde que ele queira, pelo menos, significar que as relações saudáveis são (também) aquelas que pretendem resolver os seus conflitos e como tal, relações tendencialmente com menos conflitos por resolver, logo a emancipação da expressão “relações sem conflitos”.
Tantas vezes, quando os conflitos relacionais ficam reservados a cada um dos seres individuais da relação e não encontram espaço para a partilha, esses podem tender a tornarem-se num duplo “problema”: um intra-psíquico, outro inter-psíquico.
Ou seja, um conflito que pode, por exemplo, tornar-se num tabu, que não é falado, que não é discutido, que não é verbalizado, que não encontra espaço para o confronto, faz-se de conta que não existe (ou todos sabem que existe e falam sem palavras), mas isso não faz com que ele deixe de estar lá (por resolver), a existir na idiossincrasia individual e sem expressão relacional (ou com expressão quase pseudo-relacional, num espaço relacional ambíguo e quase pseudo-subliminar, sujeito à diversidade e variabilidade interpretacionais, sujeito à fantasia do que é e do que pode ser).
Isso deixa uma margem de manobra de dimensão diversa e de amplitude imensa para a fantasia individual (por exemplo, a fantasia do que é o outro, do que é a relação, do que somos nós na relação, e mesmo do que somos nós), em contraponto com a realidade relacional (e individual). Do que dessa fantasia nasce e cresce, encontram-se demasiadas vezes as fontes dos acima ditos “problemas”… até um dia ela se desfazer (morta) pela realidade (ou não); até um dia se verificar que a fantasia não deixa de o ser, mesmo que possa ser compatível com a realidade do outro.
O outro em nós será sempre muito mais uma fantasia do que ele é (do que o que ele é mesmo), quando não encontramos espaço na relação para o vermos como ele é realmente (tal como, quando não encontramos espaço em nós para vermos mais ninguém/alguém do que nós próprios, tantas vezes nem para nos vermos a nós mesmos).

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 25/01/2011

quinta-feira, 8 de julho de 2010

“Verdade razoável, dúvida aliviante.”



Torneando as dificuldades relacionais, tornando-as em hiperbólicos monstros fantasmáticos, deixando perpetuar a dúvida razoável de que ainda assim a fantasia poderá ser um objecto da realidade, encontra-se assim permanecido na busca do autêntico, que é tão duro como aqueles monstros o são de roer.
“Onirique comme un rêve, no sonho, como num sonho, terei que estar acordado, e nem acredito que já estou…” Essa sensação de (o)correr espontânea e quase livremente, como uma onírica pseudo-vigil onde de facto não é em sono, mas no sonho que se parece (re)tratar.
É da contestável razão que cada vez mais se perde na consciência (d)o emocional, que mesmo antes de ser consciente já comandaria aquelas tropas, que vêem, vêm, os ditames do actor que não sabe que o é de tão bem que representa, ainda que agora se eleve a dúvida aliviante de poder estar a representar uma realidade de morte mais tolerável que a morte dessa realidade.
Quando essa (dúvida aliviante) morrer, ficará a de verdade (razoável)…(?!)



Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 29/06/2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

“O bode introjectivo.”



Aquele que está cego e no entanto pensa que aquilo que vê é a sua realidade e a do outro, aquela partilhada, está no entanto tão enganado quanto o outro cuja visão não está, supostamente, afectada. Ambos, um com o outro, interagem dissonante e dissociativamente, numa forma assincrónica relacional.
(O primeiro) Aplica, como forma de base, inalterável e cristalizante, essa pré-premissa de que o funcionamento do mundo, interno e/ou externo, se regula por esses padrões daquilo que a sua visão lhe proporciona, generalizando assim o todo à sua imagem parcializada.
Poderia até ser uma forma sanigena de psicotismo se a afectação não fosse prejudicial, por exemplo, ao ponto de actuar em sentidos e direcções irreversíveis, isto é, de eliminar todas as possibilidades de ver pela cura da visão, e não pela possibilidade de cura pela alteração do mundo à imagem da sua visão cega actual. Não acredita realmente que a visão cega tem cura, ou tem medo do que a sua visão possa observar depois de curada? Há ainda a possibilidade de ter a noção de que não aceitará o que a sua visão vier a ver depois de curada, até porque a cura pode ser tão fictícia quanto a cegueira que apresenta... (O que vê e tão inaceitável e doloroso que é “preferível” tornar-se cego a ver essa dolosa realidade…) (A irreversibilidade de se tornar realmente cego e de realmente não ver.)
(O primeiro) Pede ao outro que veja, pede ao outro que confirme a sua visão, pede ao outro co-responsabilidade pela e para a existência dessa visão; pede ao outro ajuda manipulando-o como se manipula a si próprio descontroladamente, pede ao outro que seja uma marionete pedindo-lhe ainda que apesar disso acredite que tem vontade própria; pede ao outro que não seja outro e seja parte dele próprio, que se funda com ele, e faça parte do seu plano de adulteração do próprio, e principalmente que não só não seja um bloqueador dos objectivos de transmutação da realidade, como também seja alimento corroborativo e confirmativo de que ele não só não está cego, como até vê melhor que os demais. Pede ao outro que participe, para só ele participar.
O outro, aceita participar, (através da pseudo-imposição de “regras relacionais explicitas”, que o primeiro diz aceitar sem as compreender, regras diferentes daquelas que a visão do primeiro lhe permite aceder), até ter percebido que também ele não aguenta ser o que não é e que o primeiro lhe pede insistentemente que seja, um não ajudante, um possibilitante apenas, de que afinal estar cego é também uma forma salubre de ver.
(O primeiro, o outro.) Repete. Abandona. Encaminha. O insuportável conteúdo introjectivo, (que) tornou evidente a impossibilidade relacional.
Ambos percebem (n)a assintonia, a morte, a perda, o tempo. “Afinal de contas a culpa de estar cego antes de conhecer o outro é desse outro que agora conheci.”. Agora, o outro, passou a ser o bode introjectivo para a existência da cegueira do primeiro.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 30/03/2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

“Da megalomania à frustração da realidade – impasse terapêutico.”



Segue-se um retalho real de livre associação (com a confidencialidade ética assegurada e devida autorização), onde o paciente se depara, (obviamente) não só, mas também, com a “impossibilidade de agir na cena analítica”:
“…não me parece que haja nada que me possa fazer sair deste impasse, apesar de sentir que essa própria estagnação se deve a esse próprio nada… se ao menos pudesse ir fluidamente como antes, onde não existia essa preocupação de encontrar o caminho, se apenas o seguia caminhando… sentia-me lá, no sitio certo, pela hora adequada, tudo parecia fluir de forma natural e espontânea… agora a sensação de que até o próprio pensamento se defende dele próprio em busca do rumo a seguir, do próximo passo, de um destino, não propriamente de chegada, mas pelo menos de passagem… nem isso, agora acontece… de tão parado começam mesmo a doer-me as pernas de não andar… talvez já tenha caminhado mais, mais do que o que devia, mais do que podia o meu corpo aguentar… assim, não sei para onde ir, sabendo que não é aqui que quero ficar… sinto sempre o desejo excitante de prosseguir, mas cada vez que inicio a caminhada fico na dúvida se o meu sentido é mesmo esse, ou estarei mesmo a andar ao contrário… ficar aqui não quero… aqui não quero ficar… esta falta de objectivos megalómanos, ou melhor, a frustração da existência de objectivos demasiado megalómanos, terrivelmente difíceis de alcançar, talvez me esteja a impedir de começar a dirigir-me para eles, na dúvida, na grande dúvida sobre a capacidade de materialização, sobre se é real esta auto-fantasmática, se de facto é a minha verdade que terei que fazer e farei todos esses feitos, que nem sempre se vêem, mas que ao meus olhos brilham… isto não pode ser apenas só isto, tem que ser mais… exigência auto-nomenclática de ir para lá do conhecido, muito para além do já elaborado, mas muito aquém destas tremendas expectativas de megalomania exagerada… é como se não pudesse caminhar mais, sem sentir que esse caminho por onde for me leve, nos leve, até onde ainda não tínhamos ido, como a um lugar onde sempre desejamos ter estado sem nunca lá termos ido… parece-me difícil, demasiado pesado, e ao mesmo tempo tão, tão simples…”

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 01/02/2010

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

“Integridade estática do Eu dinâmico.”


(Deve considerar-se a leitura do presente artigo de forma não generalista, estando incluídas hipóteses hiper-direccionadas de interpretação específica.)
A construção defensiva para a manutenção da integridade do Eu é uma necessidade natural e espontânea da dinâmica intra e inter psíquica, no entanto, essa nem sempre contribui para a funcionalidade do indivíduo, basta para isso que, por exemplo, essa construção defensiva desempenhe um papel inadequado e/ou desactualizado ao ataque real e/ou fantasmático, ou mesmo na ausência de ataque, na expectativa da possibilidade dele poder (ainda) existir (ou de existir de facto).
Ou seja, apesar de ser necessário fazer uma manutenção permanente da identidade é também necessário manter actualizado o sistema de manutenção. Quer isto dizer que, não é suficiente como também pode ser prejudicial manter intacta uma estrutura e organização defensivas, pois nesse caso as possibilidades de desajustamento entre os sistemas defensivos e os hipotéticos e/ou reais ataques são realmente elevadas, tornando assim as defesas em, possíveis e possibilitantes, retraimentos bloqueantes e bloqueadores da expansão individual na relação com o próprio, e consequentemente na relação com o outro.
Pode mesmo fazer a diferença entre a fixação num estado desenvolvimental anterior e a normal progressão identitária do indivíduo, onde fixar-se num estado anterior seria, num exemplo de conflito tipicamente psicótico, viver-se numa “realidade externa” (leia-se pseudo-parilhada) adulta funcionando predominantemente com uma realidade interna infantil. Esse desajustamento desadequante entre uma e outra realidade, onde a externa actual é lida (percepcionada) pela passada (e ainda actual) infantil faz com que da confrontação da realidade partilhada com a realidade idiossincrática (intra-psíquica) se originem conflitos de tipologia aparentemente psicótica. Digo aparentemente psicótica, pois à partida o conflito predominante poderia pensar-se ser entre o mundo interno e o extra-psíquico, mas nem sempre é assim, até porque na origem de muitos conflitos psicóticos estão outros de tipologia neurótica (intra e inter instâncias intra-psíquicas), e vice-versa.
(A dicotomia de divisão de conflitos neurótico-psicótica, aparece aqui como factor potencialmente reduccionista da própria realidade conflitual, quer isto dizer que, embora se possa clivar dicotómicamente para se compreender a predominância de conflitos, de facto essa clivagem pode afastar ainda mais a possibilidade genuína da própria compreensão da dimensão total do objecto.)
Voltando ao sistema defensivo desajustado acima exemplificado, pode mesmo dizer-se que esse inclui barreiras construídas para lidar com ataques que de facto até podem ter existido, mas que hoje já não existem mais, estando assim o individuo a defender-se no presente do seu passado. Melhor dizendo, os ataques ainda hoje existem, mas apenas na sua forma fantasmática da realidade intra-psíquica.
Para o necessário (sanígeno) reajustamento inter-realidades é necessário então reajustar a auto-identificação da realidade intra-psíquica (à realidade partilhada/ relacional), onde o propósito se situará na resolução dos conflitos internos anteriores ainda presentes na realidade actual do indivíduo, ainda que tantas vezes sob formas disfarçadas de sinais e sintomas, também tantas vezes, tão diferentes e diversos da sua etiologia original e originária.
O trabalho de reintegração/reinterpretação do Eu através da resolução (emocional) da dinâmica passada (mas actual), afim de ajustar de forma congruente o individuo, primeiro à sua própria realidade interna, depois à compatibilização e interacção da realidade interna com a extra-psíquica, é um caminho de tendência morosa e com custos de sofrimento elevado, que pretendem ser coadunantes com os resultados, profundos e duradouros desse tipo de terapêutica.
A necessidade de sofrimento emocional elevado como parte integrante terapêutica ou mesmo como o percurso em si para a resolução problemática de alguém num já sofrimento insuportável, embora não seja à partida uma notícia animadora, pode apesar de tudo constituir a abertura de uma nova porta de esperança. Não será preciso muito para perceber, sentindo, que a resolução de problemáticas que por si só já elevam o sofrimento, terá que passar por níveis de sofrimento também eles elevados, … “não será uma guerra sem sangue, nem serão batalhas sem baixas”…
...desintegrar uma estrutura e organização consolidadas ao longo de toda uma vida, para as substituir por uma nova e reparadora integração genuína do Eu, intra e inter relacional, por forma a se chegar a realmente reparar o Eu pathos por um Eu saudável, é tantas vezes caminhar de um falso self para um EU genuíno.

Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 13/10/2009

terça-feira, 16 de junho de 2009

“A percepção toxicológica e a funcionalidade relacional.”


O condicionamento proveniente da toxicologia da percepção do mundo (interno/externo) nem sempre serve a fins sanígenos, tal como poderia ser, para alguns, expectável que a sua função fosse exactamente a de emancipação da funcionalidade do ser relacional. Isto é, poder-se-ia esperar que a toxicidade incluída na visão do mundo por cada indivíduo o munisse de parâmetros de funcionalidade adequada à relação, específica e única, desse mesmo indivíduo com o mundo com o qual ele se relaciona.

No entanto, a toxicidade, no sentido da contaminação da percepção por elementos idiossincráticos, auto, hetero e multi dirigidos, traz à relação um dos cernes da existência relacional, o da partilha de toxicidades(?). Ou seja, a necessidade de exteriorização do Eu materializado na relação com o próprio Eu, e umas tantas outras vezes com o outro (?) (esta seria uma forma, ainda primária e patogénica, narcísica de relacionamento).

A “boa” funcionalidade relacional tende a existir não necessariamente quando há uma real partilha ou inter e/ou intra-entendimento (?), mas sim quando ela serve a existência mútua dos seres que se relacionam. Melhor, quando permite consumar a existência do Eu pela existência do nós, o outro faz-nos existir (na relação que com ele estabelecemos – forma de relacionamento sanígeno).

Ora, isso levanta mais uma vez, a questão linearmente psicótica da exclusividade de funcionamento intra-relacional, onde o indivíduo apenas se relaciona entre si próprio, uma espécie de psicose extrema onde o contacto com o mundo externo, aparentemente não se efectiva. Quer isto dizer que, mesmo num estado de funcionamento extremista de aparente total ausência de contacto ao mundo relacional externo ao indivíduo, dificilmente isso não passará de uma pseudo-aparência, já que esse ser teve (ou tem) que se relacionar, ainda que (pseudo) uni-direccionalmente (do mundo externo para esse indivíduo) para que pudesse sobreviver, pois o mundo externo é ainda assim o seu habitat. Até porque há alguma impossibilidade uni-direccional, pois o indivíduo ao receber do mundo externo já está a relacionar-se com ele, embora isso não signifique que devolva a esse mesmo mundo uma forma relacional que o mundo dos humanos possa, ou mesmo consiga, inter-entender.

Então, parece que o dúbio percepcional se manifesta, quer pela presença do código imposto e imprimido desde as relações primárias e precoces, quer pela toxicidade que essa imposição parece limitar/permitir os indivíduos nas novas construções relacionais. Quer isto significar que a perspectiva de abordagem analítico-relacional de base, umas tantas vezes impede a construção genuína de novas relações, e outras tantas vezes permite que haja abertura pré-disposta a essas novas formações.

Apesar da existência de fundamentos base, que funcionam como reguladores e até por vezes como padrões de aceitação/rejeição e funcionalidade/disfuncionalidade relacionais, isto é, das relações primárias para as novas relações, isso tem vindo a ser visualizado como objecto de análise para a mutação profícua do indivíduo. Ou seja, será a partir do (re)conhecimento desse material inconsciente, primário e primitivo, que posteriormente será possível ao indivíduo crescer genuinamente nas novas relações, se a nova relação for genuinamente nova em toda a dinâmica multi direccional que a contempla.


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 15/06/2009

quinta-feira, 30 de abril de 2009

“A vontade inconsciente de matar a minha mãe (complexo de Édipo negativo?).”


Extracto de uma sessão, com a confidencialidade devidamente assegurada, paciente em associação livre…


“A elaboração intrapsíquica do relacionamento edipiano primário na forma invertida de papeis, onde o pai representa “a mãe a conquistar”, devido à indisponibilidade materna percebida e/ou fantasiada para ser conquistada pelo filho, encontrou-se mais tarde, na vida adulta desse filho, na emersão para a pseudo-consciência da actividade pulsional de morte do desejo inconsciente de matar a sua mãe.


Matar a mãe que o pai representa fantasmáticamente, ou matar a mãe real?

Este “Édipo” parece encontrar-se agora num estado secundário confusional, ou pelo menos num estado de continuidade confusional primário, onde não entende qual o seu papel natural, não sabendo quem conquistar (pulsão de vida/sexual) e quem matar (pulsão agressiva/ de morte).

A angústia proveniente da dúvida permanente instaurada parece alimentar a confusão primitiva sobre quem é quem, hetero fantasiando, e sobre quem é ou que “Édipo” deve ser (ou deveria ter sido).


E onde cabe o papel do irmão de “Édipo” no seio desta tentativa frustrada de perceber quem é a mãe a conquistar e o pai a aniquilar?

“Édipo” sente-se demasiado fragilizado para ser o guerreiro conquistador que a natureza dele próprio espera que ele seja, a luta é demasiado feroz, os adversários são mais fortes, e existe ainda o fantasma de não saber quem são os aliados e quem são os inimigos, “Édipo” está confuso e decide não lutar.


Mais tarde descobre que mesmo que não queira essa(s) guerra(s) não se pode dissociar de a(s) travar, se não lutar morre (é aniquilado, foi?), se lutar pode morrer, pode matar (conquistar o objecto de investimento sexual/de vida), mas não pode nem consegue pacificar antes de ir para a guerra.


Será que ele ao conquistar confusionalmente o pai, isto é, o pai em representação invertida da mãe, não estará também a conquistá-lo a ele enquanto pai realmente?

Conquistar o pai (de facto) implica matar a mãe (de facto), ou matar a mãe é matar o pai que funciona em representação materna (?) possibilitando assim conquistar a mãe “real”?”


Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria, 28/04/2009