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Artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

“SAPO.”

Ora aí está!
A confirmação que todos esperávamos, de que realmente todos os esforços estão a ser feitos no sentido da melhoria permanente do Serviço Nacional de Saúde!
Já podemos dormir todos mais descansados pois dá para perceber que os dinheiros públicos para a saúde estão determinados a ser bem gastos, e, principalmente sempre destinados com base em premissas de valoração da melhoria dos cuidados em si e não com fundamentos meramente economicistas.
É isso mesmo… Agora já não vai mal, simplesmente não vai…
Deixando as dolorosas ironias de lado…
De que poderá valer fundamentar, direccionando as argumentações em etiologias referentes à (por exemplo) necessidade incontestável e incontornável da continuidade de um serviço, porque na realidade a sua existência contribui e implica níveis de qualidade de saúde, se (…): na percepção do pseudo ouvinte dessas argumentações não estão incluídos (reais) parâmetros de qualidade mas sim de quantidade.
“Nós” falamos português e “eles” numa língua inventada à pressão… Então, teremos “nós” que falar uma língua que não é nossa para que possamos ser ouvidos no nosso próprio país?! Ou vamos simplesmente deixar que uma língua nova invada o nosso território, que “eles” se ponham a falar para nós assim?!
O que se passa (não!?) é mais do que a típica demonstração de poder absolutista e elitista, que não pretende ser claro, que tem segundas intenções, que se apresenta numa forma e é realmente outra…
Não é da minha pretensão sustentar uma de tantas “teorias da conspiração”, o que objectivo é a reflexão dirigida à acção, deixar a fantasmática improdutiva e mesmo deficitária substituindo-a por uma realidade mais positiva e mais verdadeira…
Cada “um” que pense por si?!
“Um” que pense por todos?!
“Nós”?! “Eles”?!
Divididos ou não, estamos decididamente sem mais uma ou outra coisa (e com outras tantas a mais) … Nem tudo vai mal, resta saber para quem… Mas como não estou aqui para falar de generalidades, não temos SAP, temos SAPO.
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 17/10/2006

“Burlas e burlinhas: mais um conto de fadas psicanalítico.”

“O lobo que veste a pele de cordeiro”, pode e deve ter diversas interpretações, aqui vou focar-me apenas em duas mediante a perspectiva da intencionalidade: o lobo que sabe que é lobo e que veste a pele de cordeiro de forma intencional, e o lobo que pensa que é cordeiro e que veste a pele de cordeiro de forma ingénua (domesticada).
O que é certo é que ambos são lobos e ambos vestem uma pele que não é sua para se poderem “juntar” (aproximar) a um rebanho de potencial alimento. Forma mascarada como parte da metodologia e estratégia de caça no primeiro caso, automatismo etiológico de base genética e réptiliana (instinto sobrevivência). No segundo, a mesma estratégia e o mesmo instinto, mas intragado pela ignorância ingénua proveniente de uma domesticação ou impressão de regras e valores no aclamado sistema psíquico regulador da moral que é o subconsciente.
Com ou sem princípios de moral, ambos não se livram de actuar de forma similar, ou talvez o segundo se retraia (até porque não tem necessidade real de caçar para a satisfação alimentar – comida no prato), ou caso actue fique com problemas ou desenvolva conflitos intrapsíquicos, aquilo a que vulgo se chama culpa ou peso na consciência…
Independentemente disso, os dois têm um desejo inato de oralidade alimentar pelos mesmos cordeiros, os primeiros saciam-se sem problemas de moral e os segundos sentem-se culpados por acharem que fizeram mal (se o fizerem). Afinal de contas, o que está em causa acaba por não ser o que é certo ou errado fazer, mas sim o que se faz. E o que é que fazem os lobos neste conto?
Parece-me que o leitor está inteirado da resposta mais assertiva à questão acima exposta, mas nem tudo é aquilo que parece, ou melhor, o mais comum são as coisas não serem bem aquilo com que se afiguram, tal como o cordeiro que é apenas um lobo. A questão deixou de ser o cordeiro que é apenas um lobo, para passar a ser: que tipo de lobo é aquele cordeiro?
Por muito domesticado que esteja o lobo ingénuo o seu desejo é comer as ovelhas, por muito que esse lobo se queira esquecer do que realmente é não o deixará de ser por causa disso… Ao invés, o lobo que sabe que é lobo, aceita a sua condição de vida, aceita-se a si próprio, até porque ninguém é alguém para julgar se o lobo é mau e o cordeiro é bom… O lobo é “apenas” um lobo, e deve sê-lo como é para não o deixar de ser, no sentido em que a sua existência é tão digna como a de qualquer outro animal.
Bem, a minha função não é defender o direito à existência animal enquanto ser no seu estado selvagem, até porque não é a isso a que me refiro, mas sim o direito à autenticidade que pode ser ou não imbuída de um sistema (simples ou) complexo de valores. Basicamente, ambos os lobos são autênticos, mas apenas um é genuíno.
Voltando aos cordeiros, nem todos servem de alimento imediato, nem isso seria possível, pois para bem da sobrevivência de ambos, haverá sempre mais cordeiros no rebanho do que lobos a atacá-lo. Note-se também, e por muito óbvio que pareça é mesmo assim necessário referir, que os lobos existirão enquanto houver cordeiros, e tanto uns como outros são precisos para ambos (é claro que estou a ser reduccionista na metáfora diminuindo o universo a duas espécies animais, mas para o título serve quase perfeitamente…). Poderão os cordeiros viver sem lobos? (…)
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 19/09/2006

“Dissociação física, dissociação mental…”

Quem me conhece, quase de certeza já me ouviu dizer que se deve “enfrentar os problemas no sentido da sua resolução”. Essa premissa de actuação deve ser altamente contextualizada e adequada assertivamente, e nunca tida como fórmula ou máxima que se aplique a qualquer situação. Mesmo antes disso é necessário compreender as ditas palavras para que não se caia em erros de interpretação que façam com que se exerça o sentido oposto do que à partida seria tido em conta como muito benéfico.
Ou seja, torna-se necessário esclarecer pelo menos que: existem etapas das questões problemáticas cuja dissociação é mais benéfica do que a confrontação, tornando-se assim a dissociação pontual e temporária uma forma assertiva de “enfrentar os problemas no sentido da sua resolução”; os trâmites que caracterizam quer as questões problemáticas e tudo que as envolve, quer o indivíduo, são factores condicionantes para a própria interpretação da premissa referida; por vezes, é necessário conjugar níveis de realidade e de dissociação da mesma, para que se possa sequer chegar a perceber que existe uma ou várias questões problemáticas; e, poderia continuar infindavelmente a referir pontos de referência para a relativização da frase que não deve ser dissociada de um contexto ao qual poderá ter sido aplicada…
Como de costume, de forma a reduzir os níveis teóricos, deve ser dado um exemplo real (com a habitual salvaguarda de confidencialidade)… Uma pessoa com uma psicopatologia, como é o caso da conhecida e vulgarizada depressão, deve sem dúvida reconhecer e enfrentar essa questão problemática no sentido da sua resolução. Ora isso não deve significar necessariamente que essa pessoa dissociar-se dessa problemática seja mau ou bom, útil ou prejudicial, ou qualquer outra classificação que se lhe queira atribuir. Pode significar sim que dissociar-se do problema quando o mais benéfico era enfrentar (confrontar) pode contribuir para o seu agravamento, ou significar que enfrentar o problema quando o mais útil era dissociar pode igualmente contribuir para pelos menos não trabalhar no sentido de uma melhoria. Basicamente, o importante nesta questão está na capacidade de discernimento no sentido de distinguir quais são os momentos para quê. É preciso fazer-se notar que numa “grande parte”(?!) das psicopatologias essa característica fundamental não tem normalmente peso suficiente para influenciar numa decisão que até nem faz parte, dessa parte do inconsciente, que é a consciência…
Parece-me que para quem tinha por objectivo simplificar com um exemplo prático, não fiquei sequer perto de um esclarecimento… mas devo recordar que esse pode ser apenas um objectivo subliminar e dissimulado de um outro maior: a empatia – a capacidade (sobre)humana de nos colocar-mos na posição dos outros.
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 06/09/2006

“Hipótese situacional metafórica?”

E se alguém chegasse à sua (legítima) casa com dois ou três guarda-costas e lhe dissesse que a partir daquele momento teria que desocupar a sua residência a bem ou mal?
O que é que faria?
Para onde ia você e a sua família?
Que sentimentos teria perante a situação em si e perante os autores de tal acto?
Pois é, esta é uma hipótese situacional metafórica que tem mais de real do que de fantasia… Será que para além daqueles que sentiram e sentem na pele a inclassificável violação de propriedade (mental), mais ninguém vê o que se passa? Obviamente que cada pessoa está (por defeito) impossibilitada de se dissociar da sua própria construção perceptiva do mundo e de si própria… Mas, essa condição não é impedimento de um esforço empático (e não simpático) que lhe permita ir mais além no que toca à dimensão (pseudo-epistemológica) da perspectiva alheia.
Bem, mas não me quero afastar do tema que é desta vez uma quase pura escolha do leitor, já que a obscuridade da mensagem aparece aqui sob forma de código próprio para que cada um a decifre à sua maneira (como se isso não acontecesse sempre)… Desmistificando, a questão pode muito bem ser: Mas afinal de que se trata a dita “hipótese situacional metafórica”? Pense por si, se quiser… Leia outra vez as primeiras frases em forma de questão, se lhe apetecer… Coloque as suas próprias questões, se lhe aparecer a palavra… porquê(?)…
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 22/08/2006

“Eu Phatos?”

As palavras nem sempre são o que parecem…

Existe um número elevado de pessoas que chegam à consulta psicológica com uma ideia pré-formada sobre qual a patologia que consigo transportam, criada sob diversos fundamentos, desde crenças pessoais até diagnósticos clínicos anteriores.
Algumas das vezes essa ideia (auto) caracterizante corresponde de forma assertiva à realidade existente, sendo assim fonte de ajuste para uma possível implementação terapêutica com potencial de sucesso acrescido. Outras tantas vezes, a referida ideia de si próprio contém um desfasamento entre a realidade percebida e a realidade existente, ou seja, por exemplo pessoas que pensam que têm depressão e que afinal têm um a perturbação da personalidade, pessoas que pensam ter uma ou várias patologias e que afinal não têm nada, e assim sucessivamente.
As consequências de um desajuste deste tipo podem ser todas ou nenhumas (mais vago não poderia ser…), isto é, vai antes de mais depender da interpretação perceptiva mais do que da percepção em si. De qualquer forma, grande parte das ditas consequências estão por norma já implantadas quando chegam à consulta. Quando existe a necessidade de (re)ajustar a realidade desagregada destas pessoas, com ideias concebidas à priori, também aqui as consequências podem ser adjectivadas de mais ou menos “chocantes” consoante o grau de desajuste presente (e dependentemente de toda a complexidade de factores, assim como da existência de entidades patológicas ou não…).
Por palavras meigas, (e apenas como exemplo) existem pessoas que suportam vivências sob forma de crença implantada que não corresponde à realidade em si, a realidade não deixa de existir, mas é substituída por uma outra que não é verdadeira, criando-se em si próprio o perigo da construção de um “falso self”, uma cena psicótica…
Crónicas da Mente Esquecida, por João Castanheira
in Jornal de Albergaria
, 04/07/2006